Por Manuel Menezes
A ausência das empresas Âmbar Energia S/A e Powertech Engenharia Serviços na audiência de conciliação promovida pela Defensoria Pública do Estado do Amazonas não foi apenas uma falta a um compromisso institucional. Foi um gesto que simboliza o distanciamento entre quem presta um serviço essencial e quem depende dele para viver.
Quando uma empresa aceita a responsabilidade de fornecer energia elétrica, assume também o dever de responder à sociedade. Por isso, não comparecer a uma audiência convocada para discutir um problema que afeta milhares de moradores de Humaitá demonstra, no mínimo, uma preocupante falta de compromisso com a população.
O mais grave é que essa audiência não surgiu por acaso. Ela foi motivada por uma crise que já ultrapassou todos os limites do aceitável. Em apenas doze meses, Humaitá registrou 1.067 interrupções no fornecimento de energia, sendo 138 ocorrências ligadas diretamente à geração. Ao todo, as comunidades acumularam 272 horas sem energia elétrica.
Esses números não representam apenas falhas técnicas. Representam escolas interrompendo aulas, postos de saúde correndo riscos na conservação de vacinas e medicamentos, comerciantes acumulando prejuízos, produtores rurais sofrendo perdas e famílias inteiras vivendo na insegurança de não saber quando a luz vai voltar.
Nas comunidades ribeirinhas, a situação é ainda mais cruel. Enquanto os moradores enfrentam isolamento, dificuldades de transporte e uma estiagem que se aproxima, a energia elétrica deveria ser um serviço garantido. Em vez disso, tornou-se motivo de preocupação diária.
É impossível ignorar outro fato alarmante revelado pela Defensoria Pública: moradores relataram que pessoas perderam a vida ao tentar improvisar reparos na rede elétrica diante da demora no restabelecimento do serviço. Quando uma situação chega a esse ponto, ela deixa de ser apenas um problema operacional e passa a representar uma questão de responsabilidade social.
Enquanto defensores públicos viajaram horas de lancha para ouvir as comunidades do Lago do Uruapiara e do Distrito de Auxiliadora, enquanto moradores abriram suas casas para relatar o sofrimento vivido diariamente, enquanto representantes do município participaram das discussões em busca de soluções, as empresas simplesmente não apareceram.
Não enviar representantes para uma audiência dessa importância transmite uma mensagem que a população dificilmente esquecerá. É como dizer que o problema pode esperar. Mas quem vive dias seguidos sem energia sabe que não pode.
A Defensoria Pública fez o que se espera de uma instituição comprometida com os direitos da população: ouviu os moradores, realizou audiências públicas, notificou oficialmente as empresas, abriu espaço para o diálogo e concedeu prazo para respostas. Ainda assim, não houve o retorno esperado.
Se o diálogo foi ignorado, resta ao Poder Judiciário ser chamado a intervir. A anunciada Ação Civil Pública deixa de ser apenas uma possibilidade e passa a representar uma resposta necessária diante da inércia das empresas.
Humaitá não está pedindo privilégios. Está exigindo respeito.
Respeito às famílias que pagam suas contas e esperam um serviço de qualidade.
Respeito aos profissionais de saúde que dependem da energia para salvar vidas.
Respeito aos estudantes que precisam de escolas funcionando.
Respeito aos comerciantes que sustentam suas famílias.
Respeito às comunidades ribeirinhas, que já enfrentam enormes desafios geográficos e não podem continuar abandonadas por quem deveria garantir um serviço básico.
Empresas podem faltar a uma audiência.
Mas não podem faltar com responsabilidade.
E, principalmente, não podem virar as costas para um povo inteiro que há anos espera apenas aquilo que lhe é de direito: energia de qualidade, atendimento eficiente e respeito.
Porque Humaitá merece muito mais do que desculpas. Merece soluções.











