C de Cruzeta: governo Roberto Cidade publica errata e contrato de guinchos do Detran salta de R$ 18 milhões para R$ 90 milhões

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Por: Manuel Menezes

MANAUS (AM) — Uma errata publicada pelo governo Roberto Cidade transformou os números de um contrato do Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM) e coloca uma cifra milionária no centro das atenções: o valor global estimado que aparecia como R$ 18.059.490 passou para R$ 90.406.098.

São mais de R$ 72 milhões de diferença entre os dois valores.

A alteração envolve o Primeiro Termo Aditivo ao Contrato nº 005/2025, firmado pelo Detran-AM com a empresa Serviços Especiais de Transportes do Amazonas Ltda., responsável por serviços envolvendo caminhões-guincho.

O documento também modifica o valor mensal estimado, que passa de R$ 1.856.306,93 para R$ 2.009.024,40.

O contrato tem vigência indicada até 12 de fevereiro de 2030, conforme as informações do documento. A errata estabelece ainda que os valores corrigidos sejam considerados a partir de agosto de 2026, em período correspondente a 47 meses.

Uma “correção” de mais de R$ 72 milhões

É justamente a dimensão da alteração que exige explicações públicas detalhadas.

Não se trata de uma diferença de alguns milhares de reais provocada por uma simples casa decimal. Entre R$ 18 milhões e R$ 90,4 milhões, há uma distância de aproximadamente R$ 72,3 milhões.

Na prática, o novo valor é cerca de cinco vezes o montante global anteriormente informado.

Uma mudança dessa proporção torna insuficiente, do ponto de vista do interesse público, que o cidadão simplesmente encontre uma “errata” com os números corrigidos. É razoável cobrar do governo Roberto Cidade e do Detran-AM uma explicação clara sobre como o valor anterior foi publicado, por que estava errado e qual memória de cálculo sustenta os R$ 90,4 milhões agora apresentados.

Afinal, o que explica os R$ 90 milhões?

Outro ponto que merece atenção é a própria composição financeira do contrato.

Se o serviço custa milhões aos cofres públicos, a população tem direito de saber de maneira facilmente acessível quantos veículos estão envolvidos, quais os valores unitários, qual a demanda estimada, como foram calculados os quantitativos e quais circunstâncias justificam o montante global.

A administração pública não está lidando com dinheiro privado. São recursos públicos.

Por isso, uma alteração superior a R$ 72 milhões não pode ser tratada politicamente como mero detalhe burocrático.

O diretor-presidente do Detran-AM é Marcos Jânio da Silva Costa, que assumiu a direção do órgão em maio deste ano. A própria página de transparência do departamento confirma sua presença no comando da autarquia.

Governo Cidade precisa explicar

O episódio acontece já sob a administração de Roberto Cidade, que assumiu o Governo do Amazonas em 2026. Documento oficial publicado em agosto identifica Roberto Maia Cidade Filho como governador do Estado.

É por isso que a responsabilidade política por esclarecer o caso não pode ser empurrada apenas para setores técnicos.

O governador precisa exigir que seu Detran apresente publicamente todos os elementos capazes de esclarecer a mudança.

Por que inicialmente foram publicados R$ 18 milhões? De onde surgiram os R$ 90,4 milhões? O primeiro valor correspondia a quê? Como foi calculado o segundo? Quais serviços e quantitativos compõem o contrato?

São perguntas objetivas e perfeitamente legítimas.

E precisam de respostas igualmente objetivas.

Transparência não pode ser uma cruzeta

Uma errata existe justamente para corrigir erros materiais de documentos públicos. O problema político aparece quando a correção envolve uma diferença tão gigantesca que, inevitavelmente, chama atenção para a qualidade e a transparência da gestão do dinheiro público.

Daí o “C de Cruzeta”.

Se o valor correto sempre foi próximo dos R$ 90 milhões, o governo precisa explicar como um contrato dessa dimensão apareceu oficialmente com valor global de apenas R$ 18 milhões.

Se houve mudança na composição financeira, é necessário explicar exatamente o que mudou.

O que não cabe é esperar que uma diferença superior a R$ 72 milhões passe despercebida pela população amazonense.

O Detran exerce funções públicas relevantes para o trânsito e a segurança viária no Amazonas, conforme descrição institucional do próprio Governo do Estado. (amazonas.am.gov.br) Justamente por isso, seus contratos milionários devem estar submetidos ao máximo de transparência e fiscalização.

No governo Roberto Cidade, a conta que aparecia em R$ 18 milhões agora aparece em R$ 90,4 milhões.

Pode haver uma explicação administrativa e contábil para a diferença. Mas, diante de números dessa magnitude, é o governo quem tem o dever de apresentá-la — documentalmente e de maneira compreensível ao contribuinte.

Até que isso seja detalhado, a pergunta permanece: como um contrato de R$ 18 milhões virou um contrato de mais de R$ 90 milhões por meio de uma errata?