Por: Redação MVE
MANAUS (AM) — A candidata ao Governo do Amazonas Maria do Carmo (PL) decidiu transformar a chamada “velha política” em um dos principais alvos de sua campanha eleitoral. Em seu novo programa, ela aposta no humor, na ironia e em uma produção de estilo cinematográfico para associar adversários aos problemas históricos do Estado e se apresentar como símbolo de ruptura.
A estratégia aparece no programa “Contra a Velha Política”, que utiliza uma personagem idosa como metáfora para representar o amazonense que envelheceu esperando soluções para problemas como buracos, obras intermináveis e precariedade dos serviços públicos.
A mensagem é simples: os mesmos grupos estariam governando, fazendo alianças e repetindo promessas há décadas, enquanto Maria representaria uma alternativa ao sistema.
O discurso é eficiente eleitoralmente.
Mas também abre espaço para uma pergunta: até que ponto Maria do Carmo está realmente distante da política tradicional que passou a atacar?
Maria já disputou eleição ao lado de Arthur Virgílio
A candidata não estreou na política em 2026.
Sua primeira experiência eleitoral ocorreu em 2022, quando concorreu como primeira suplente ao Senado na chapa encabeçada pelo ex-prefeito de Manaus e ex-senador Arthur Virgílio Neto, então pelo PSDB.
Em 2024, voltou às urnas como candidata a vice-prefeita de Manaus e chegou ao segundo turno. Agora, filiada ao PL, disputa pela primeira vez uma eleição como cabeça de chapa.
Isso não impede Maria de defender renovação.
Mas torna legítimo confrontar a imagem de alguém completamente exterior à política tradicional com sua própria trajetória.
Afinal, Arthur Virgílio é justamente um dos personagens mais longevos da política amazonense, com passagens pelo Senado, Câmara dos Deputados, ministério e Prefeitura de Manaus.
Família também possui ligação histórica com a política
Existe outro ponto que torna o discurso mais complexo.
Maria do Carmo é casada com o empresário Wellington Lins de Albuquerque, irmão do deputado federal Átila Lins, político que acumula décadas de atuação e sucessivos mandatos no Amazonas.
É necessário fazer uma distinção importante: Maria não pode ser responsabilizada pelas escolhas políticas de seus parentes, nem o vínculo familiar demonstra que ela participe das articulações de Átila.
Politicamente, entretanto, a proximidade familiar com um dos nomes mais tradicionais do Estado inevitavelmente entra no debate quando a própria candidata transforma a “velha política” no eixo de sua campanha.
O que Maria chama de “velha política”?
A candidata já explicou que sua crítica não está relacionada simplesmente à idade dos adversários.
Em maio, ao atacar o discurso de renovação de Roberto Cidade, afirmou que a “velha política” à qual se refere está relacionada às práticas políticas e não necessariamente à idade de quem as pratica.
Esse esclarecimento é relevante.
Significa que a discussão não deveria ser sobre quantos anos alguém possui ou há quanto tempo está na vida pública, mas sobre alianças, práticas administrativas, grupos de poder e comportamento político.
E é justamente nesse terreno que a candidata também deverá aceitar ser questionada.
Estratégia é ocupar o espaço da mudança
O objetivo eleitoral está claro.
Maria tenta estabelecer uma divisão entre ela e os principais adversários, apresentando sua candidatura como uma alternativa aos grupos que já comandaram ou atualmente comandam estruturas importantes do Estado.
Não é uma estratégia isolada. No primeiro programa eleitoral no rádio, Maria e Omar Aziz concentraram ataques no atual governador Roberto Cidade, enquanto Cidade priorizou a apresentação de propostas.
Maria também vem repetindo em entrevistas que pretende representar uma mudança na administração estadual e argumenta que sua experiência na iniciativa privada a diferencia dos políticos tradicionais.
Discurso terá de passar pelo teste das urnas
A estratégia de comunicação chama atenção e pode funcionar nas redes sociais, onde conteúdos políticos com humor possuem maior potencial de compartilhamento.
Mas a campanha de Maria terá um desafio adicional: convencer o eleitor de que ruptura significa mais do que simplesmente não ter ocupado anteriormente o cargo de governadora.
Na mais recente pesquisa Quaest, divulgada em 25 de agosto, Omar Aziz apareceu com 26%, Roberto Cidade com 18%, Maria do Carmo com 16% e David Almeida com 15%. Cidade, Maria e David estão tecnicamente empatados considerando a margem de erro de três pontos percentuais.
Portanto, a estratégia de se apresentar como candidata da mudança ocorre em uma eleição ainda bastante aberta entre os concorrentes que aparecem atrás do líder.
Maria tem todo o direito de questionar adversários, alianças e décadas de administrações estaduais.
Mas, ao transformar a “velha política” em personagem de sua campanha, também coloca sua própria trajetória sob o mesmo critério.
A partir daí, caberá ao eleitor decidir se sua passagem por chapas anteriores e suas conexões com figuras tradicionais são apenas circunstâncias normais da vida política — ou se entram em contradição com a ruptura que sua campanha pretende representar.











