Toffoli mandou BC ignorar decisões de outras instâncias sobre caso Master e amplia polêmica em torno da atuação do STF

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Determinação do então relator estabeleceu que Banco Central deveria considerar apenas ordens do Supremo relacionadas ao caso; condução do ministro já havia sido marcada por decisões controversas

Por: Redação MVE

BRASÍLIA — Mais um capítulo da controversa passagem do ministro Dias Toffoli pela relatoria das investigações envolvendo o Banco Master veio à tona. Segundo reportagem publicada nesta sexta-feira (11), Toffoli determinou ao Banco Central que desconsiderasse decisões provenientes de instâncias judiciais inferiores que interferissem em questões submetidas ao Supremo Tribunal Federal no caso Master.

A determinação precisa ser compreendida dentro de seu contexto jurídico: Toffoli havia reconhecido a competência do STF para supervisionar as investigações da Operação Compliance Zero depois que o processo chegou à Corte. O próprio gabinete do ministro informou, em janeiro, que a competência do Supremo havia sido reconhecida em decisão contra a qual não foi apresentado recurso.

Ainda assim, a ordem ganha peso político diante de tudo o que aconteceu posteriormente.

Banco Central no centro da determinação

A medida significava, na prática, que o Banco Central deveria observar as determinações do Supremo nas questões abrangidas pela decisão de Toffoli, sem permitir que ordens conflitantes de outras instâncias interferissem na condução estabelecida pelo STF.

Juridicamente, a defesa de uma competência já reconhecida pelo Supremo é um argumento relevante. Politicamente, porém, a dimensão da interferência chama atenção porque o Banco Central é justamente a autoridade responsável pela supervisão do sistema financeiro e foi o órgão que decretou a liquidação extrajudicial do Master.

E a determinação não apareceu isoladamente.

Durante sua passagem pelo caso, Toffoli protagonizou uma sequência de decisões que provocaram forte repercussão. Em janeiro, por exemplo, determinou inicialmente que bens, documentos e equipamentos eletrônicos apreendidos pela Polícia Federal fossem lacrados e enviados ao STF. A orientação sobre o destino e acesso ao material foi modificada ao menos três vezes em aproximadamente 24 horas, segundo levantamento da CNN.

Caso Master acumulou controvérsias sob Toffoli

A condução do inquérito também foi marcada por divergências com a Polícia Federal.

Reportagens da época registraram que Toffoli levou o caso ao STF depois de pedido apresentado pela defesa de Daniel Vorcaro. A Polícia Federal, naquele momento, não havia identificado conexão suficiente com autoridade detentora de foro privilegiado para justificar, em sua avaliação, a transferência integral da investigação.

Toffoli também determinou oitivas de dirigentes de instituições financeiras e do Banco Central e promoveu uma acareação entre Vorcaro e o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. Seu gabinete sustentou que as medidas eram necessárias ao esclarecimento dos fatos e à proteção do Sistema Financeiro Nacional.

A questão central, portanto, vai além de uma única decisão: quanto poder deve ficar concentrado nas mãos de um ministro do Supremo durante uma investigação dessa dimensão?

Toffoli deixou o caso, mas seus atos foram mantidos

A crise acabou levando Toffoli a deixar a relatoria em fevereiro.

Um detalhe importante precisa ser registrado: os demais ministros do STF rejeitaram a tentativa de afastá-lo por suspeição e declararam válidos os atos praticados por ele durante a condução do processo. Portanto, não há decisão do Supremo declarando ilegais essas determinações.

A investigação posteriormente passou para o ministro André Mendonça.

E uma das primeiras mudanças promovidas sob a nova relatoria foi justamente devolver maior protagonismo técnico à Polícia Federal. Mendonça autorizou a redistribuição de aproximadamente cem dispositivos eletrônicos apreendidos para peritos escolhidos pela própria corporação, retirando o acesso de profissionais que haviam sido designados durante a relatoria de Toffoli.

Uma pergunta que o STF precisa responder

O episódio envolvendo o Banco Central reforça uma discussão que ultrapassa Daniel Vorcaro ou o próprio Banco Master.

O Supremo possui autoridade constitucional para decidir conflitos de competência e fazer cumprir suas decisões. Mas a existência dessa autoridade não elimina o dever de explicar à sociedade por que determinadas medidas excepcionais são necessárias, especialmente em uma investigação envolvendo bilhões de reais, instituições financeiras e autoridades públicas.

Se havia fundamento jurídico para impedir interferências de outras instâncias, esse fundamento deve ser conhecido e debatido.

Mas também é legítimo perguntar se uma investigação dessa magnitude deveria ter passado por tamanho grau de centralização nas mãos de um único ministro.

O caso Master já atravessou Banco Central, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e Supremo Tribunal Federal. Produziu mudanças de relatoria, divergências públicas e decisões posteriormente revistas.

Por isso, quanto maior o poder exercido, maior precisa ser a transparência.

O Banco Central não pode ficar submetido a uma guerra de decisões judiciais. Mas o Supremo também não pode esperar que decisões de enorme impacto institucional sejam simplesmente aceitas sem questionamento público.

No caso Master, talvez a principal dívida que ainda reste a ser paga não esteja no balanço de um banco.

É a dívida de transparência das instituições com a sociedade brasileira.