Por Manuel Menezes
O Campeonato Brasileiro de 2026 pode estar entregando diante dos nossos olhos mais um capítulo de uma transformação que vem sendo discutida há anos: Flamengo e Palmeiras estão se distanciando do restante do futebol brasileiro a ponto de transformar a Série A em uma disputa cada vez mais particular entre os dois?
Neste domingo, 6 de setembro, o Flamengo venceu o Remo por 1 a 0 no Mangueirão. Samuel Lino marcou o gol rubro-negro no segundo tempo, após assistência de Arrascaeta. Mais tarde, no Rio de Janeiro, o Palmeiras ficou no 0 a 0 com o Botafogo. A combinação devolveu ao Flamengo uma posição que não ocupava havia nove rodadas: a liderança do Brasileirão.
O Flamengo chegou aos 54 pontos. O Palmeiras ficou com 53.
Mas talvez o número mais revelador não seja o ponto que separa primeiro e segundo colocados.
É o abismo que começa logo depois.
Athletico-PR e Fluminense aparecem com 45 pontos. Ou seja: apenas um ponto separa Flamengo e Palmeiras, enquanto o líder já está oito pontos à frente do terceiro colocado.
Isso começa a desenhar um campeonato dentro do campeonato.
Flamengo e Palmeiras: uma rivalidade que virou disputa por hegemonia
A expressão “espanholização do futebol brasileiro” não nasceu agora. Ela é usada justamente para comparar um possível domínio de Flamengo e Palmeiras ao protagonismo histórico de Real Madrid e Barcelona na Espanha.
E há números recentes que ajudam a sustentar o debate.
Um levantamento publicado em maio mostrou que, entre 2017 e a 15ª rodada de 2026, Flamengo e Palmeiras ocuparam juntos a liderança do Brasileirão em 42,8% das rodadas disputadas.
Não significa que o futebol brasileiro tenha virado uma cópia do espanhol. Está longe disso. Aqui ainda existe maior equilíbrio, outros clubes conquistam grandes títulos e a própria história recente oferece exemplos suficientes para rejeitar a ideia de um duopólio absoluto.
Mas ignorar a tendência também seria fechar os olhos.
Flamengo e Palmeiras construíram estruturas financeiras, elencos e capacidade de investimento que permitem aos dois atravessar temporadas ruins e, pouco tempo depois, retornar ao topo.
E 2026 novamente apresenta esse cenário.
O Palmeiras permaneceu na liderança desde a sétima rodada. Foram meses olhando os adversários de cima. Bastou começar a desperdiçar pontos para aparecer justamente quem?
O Flamengo.
Não apareceu um clube vindo do meio da tabela.
Não apareceu uma surpresa.
Apareceu o outro gigante financeiro e esportivo do país.
O Flamengo não apenas lidera
Existe outro detalhe importante.
O Flamengo chegou à ponta apresentando números que ajudam a explicar por que está lá: são 51 gols marcados e apenas 21 sofridos em 26 partidas. O Palmeiras também sofreu somente 21 gols.
Portanto, não estamos falando simplesmente de dois clubes ricos.
Estamos falando de organizações que conseguiram transformar poder econômico em regularidade esportiva.
É justamente aí que mora o perigo para os concorrentes.
Campeonato de pontos corridos pune improvisação. Uma equipe pode eliminar Flamengo ou Palmeiras em duas partidas de mata-mata. Pode ganhar uma Copa do Brasil. Pode fazer uma Libertadores extraordinária.
Mas disputar 38 rodadas contra clubes capazes de manter elencos profundos e corrigir problemas durante a própria temporada é outra história.
Ainda existe campeonato — e muito
Seria precipitado entregar a taça ao Flamengo ou decretar que apenas dois clubes podem ser campeões.
Há muito futebol pela frente.
O próprio ponto de diferença entre Flamengo e Palmeiras mostra que qualquer tropeço pode inverter novamente a liderança.
Mas a rodada deste domingo deixou uma fotografia simbólica do futebol brasileiro atual:
Flamengo, 54. Palmeiras, 53. Depois deles, 45.
É essa fotografia que deveria preocupar os demais gigantes.
Porque talvez a pergunta já não seja se Flamengo e Palmeiras são hoje duas das maiores forças do país. Isso parece evidente.
A pergunta é outra:
até onde essa distância pode chegar?
Se Corinthians, São Paulo, Santos, Vasco, Botafogo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Atlético-MG, Cruzeiro e outros clubes de enorme tradição não conseguirem acompanhar principalmente em gestão, receitas, planejamento e estrutura, o futebol brasileiro corre o risco de ver aquilo que sempre foi sua maior riqueza — o equilíbrio entre vários gigantes — diminuir gradualmente.
Ainda não somos Espanha.
Mas quando, depois de 26 rodadas, primeiro e segundo estão separados por um ponto, enquanto o terceiro já aparece oito pontos atrás, vale prestar atenção.
Porque uma “espanholização” não acontece por decreto.
Ela acontece aos poucos, temporada após temporada, até o dia em que aquilo que parecia tendência vira realidade.











