EDITORIAL — A “soberania” de Lula: um discurso de país extraordinário diante de um Brasil que enfrenta problemas reais

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Lula usa o 7 de Setembro para vender um país extraordinário; o problema é que milhões de brasileiros precisam enfrentar todos os dias um Brasil muito menos confortável que o apresentado na televisão

Por Manuel Menezes

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu a véspera do 7 de Setembro para falar de independência, soberania, empregos de qualidade, desenvolvimento, educação, saúde, riquezas naturais e de um suposto futuro extraordinário para o Brasil.

É um discurso bonito.

Talvez bonito demais.

Porque existe uma distância que precisa ser discutida entre o Brasil apresentado pelo presidente diante das câmeras e o Brasil que existe quando as câmeras são desligadas.

Lula declarou que “um país soberano é aquele capaz de criar as oportunidades que o seu povo precisa para conquistar a própria independência”.

Concordo.

Então a pergunta inevitável é: onde está essa independência econômica para milhões de brasileiros?

Não existe soberania verdadeira apenas porque um presidente enfrenta verbalmente uma potência estrangeira. Soberania também significa ter uma economia capaz de permitir que uma família trabalhe, produza, invista, compre sua casa e construa seu futuro sem depender permanentemente do Estado.

E justamente aí o discurso presidencial começa a encontrar dificuldades.

O país extraordinário encontra os juros

Lula falou em geração de empregos de qualidade e independência financeira.

Mas o Brasil continua convivendo com juros extremamente elevados. O próprio Banco Central registra uma política monetária fortemente restritiva e justificou esse cenário por fatores que incluem expectativas de inflação desancoradas e incertezas econômicas.

Não se trata de dizer que Lula determina sozinho a Selic — não determina.

Trata-se de perguntar por que um pronunciamento presidencial sobre o futuro econômico praticamente ignora uma das maiores dificuldades enfrentadas hoje por quem precisa financiar uma empresa, investir ou consumir.

Para o pequeno empresário, soberania não é uma palavra pronunciada diante de uma bandeira.

É conseguir crédito sem ser esmagado pelos juros.

Para quem trabalha, soberania é conseguir viver do próprio salário.

Para quem empreende, é poder crescer sem descobrir que o custo do dinheiro transformou investimento em risco.

E as estatais, presidente?

Existe outro contraste que não deveria desaparecer de um pronunciamento tão otimista.

Os próprios Correios divulgam demonstrações financeiras de 2026 e vêm atravessando uma situação que exige atenção sobre sua sustentabilidade e gestão; além disso, indicadores operacionais oficiais mostram deterioração relevante em diversos índices de cumprimento de prazos entre 2025 e partes de 2026.

Portanto, quando o governo fala em um Brasil preparado para o futuro, a oposição tem todo o direito — e o dever — de perguntar:

como estão sendo administradas as empresas que já pertencem ao povo brasileiro?

É muito fácil falar das riquezas que ainda serão exploradas.

Mais difícil é apresentar eficiência naquilo que já está sob responsabilidade do Estado.

Soberania não pode virar escudo político

O trecho mais político do pronunciamento veio quando Lula afirmou:

“Não podemos baixar a cabeça diante de potências estrangeiras.”

E acrescentou:

“Não somos colônia e não seremos colônia de ninguém.”

A defesa da soberania brasileira é legítima. Independentemente de esquerda ou direita, nenhum brasileiro deveria desejar um país subordinado aos interesses de outra nação.

Mas soberania não pode ser transformada em uma palavra mágica usada para encerrar qualquer discussão sobre problemas internos.

O Brasil deve defender sua independência diante dos Estados Unidos, China, Europa ou qualquer outra potência.

Da mesma maneira, porém, precisa defender seus cidadãos contra corrupção, desperdício de dinheiro público, aparelhamento político, irresponsabilidade fiscal e abuso de poder — venham de onde vierem.

Soberania não é propriedade de Lula.

Soberania pertence aos brasileiros.

O Brasil não precisa de propaganda; precisa de resultados

Lula também disse que o brasileiro deve ter “independência financeira”, educação, saúde pública de qualidade e liberdade para escolher “a melhor profissão e o melhor emprego”.

É difícil discordar.

A questão é outra:

depois de tantos anos de Lula e do PT ocupando o Palácio do Planalto, por que tantas dessas promessas continuam sendo apresentadas como futuro?

Quando exatamente esse futuro chega?

O Brasil precisa romper uma lógica política antiga segundo a qual distribuir benefício social basta para resolver pobreza.

Programas de transferência de renda são necessários para proteger famílias vulneráveis. Mas deveriam funcionar como ponte para a autonomia, e não como projeto permanente de dependência.

O objetivo maior de qualquer governo deveria ser fazer com que cada vez mais brasileiros não precisassem de auxílio estatal.

Emprego, qualificação, investimento, empreendedorismo e produtividade são algumas das portas reais para essa independência.

A maior política social é permitir que uma pessoa tenha condições de construir sua própria prosperidade.

O 7 de Setembro pertence ao brasileiro

Talvez esse seja o maior problema do pronunciamento.

O 7 de Setembro deveria ser uma oportunidade de união nacional, mas novamente aparece carregado de mensagens que dialogam diretamente com a disputa política do momento.

Lula fala de soberania olhando para fora.

Eu prefiro olhar para dentro.

Quero a soberania do trabalhador que não precisa escolher qual conta atrasará no final do mês.

A soberania do comerciante que consegue manter as portas abertas.

A soberania do jovem que encontra emprego.

A soberania do aposentado que sabe que seu dinheiro será protegido.

A soberania de instituições que investiguem qualquer pessoa, seja ela de esquerda, direita, governo ou oposição, sem dois pesos e duas medidas.

E principalmente a soberania de um cidadão que não precise agradecer a político algum por conseguir sobreviver.

Isso é independência.

O Brasil real não cabe em um pronunciamento

O presidente encerrou dizendo que somos um “extraordinário povo brasileiro”.

Nisso, Lula tem razão.

O povo brasileiro é extraordinário.

Mas talvez seja justamente por isso que mereça mais do que discursos extraordinários.

O Brasil não precisa ser convencido de que está tudo bem.

Precisa que as coisas fiquem bem.

Não precisamos de um país maravilhoso durante alguns minutos de pronunciamento oficial e muito mais complicado quando começa a segunda-feira.

Neste 7 de Setembro, defender soberania significa também ter coragem para confrontar propaganda com realidade.

Porque independência não se mede pela quantidade de vezes que um governante pronuncia a palavra “soberania”.

Mede-se pela liberdade que o cidadão possui para viver, trabalhar, produzir e prosperar sem permanecer eternamente dependente daqueles que ocupam o poder.

E enquanto o governo precisar vender pela televisão um Brasil que tantos brasileiros ainda procuram nas ruas, existe uma pergunta que nenhum pronunciamento conseguirá apagar:

se o futuro prometido é tão extraordinário, por que o presente ainda precisa de tanta propaganda para parecer bom?