Por: Redação MVE
BRASÍLIA (DF) — O coordenador do programa de governo da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), José Sergio Gabrielli, provocou reação no debate econômico nesta segunda-feira (31) ao classificar como “fake news” a avaliação de que o Brasil enfrenta uma crise fiscal.
Ex-presidente da Petrobras, Gabrielli argumentou que diferentes indicadores da economia permanecem favoráveis e que não existe motivo para pânico.
“Não existe uma questão fiscal, ou uma crise fiscal. É meio fake news isso”, afirmou Gabrielli em entrevista à Folha de S.Paulo. Ele citou desemprego baixo, inflação em desaceleração, reservas internacionais, contas externas e câmbio controlado para sustentar sua posição.
O problema é que situação fiscal e desempenho geral da economia não são exatamente a mesma coisa.
E os números mais recentes da dívida ajudam a explicar por que economistas, mercado e até integrantes do próprio governo Lula continuam discutindo a necessidade de ajuste nas contas públicas.
Dívida bruta chega a R$ 10,9 trilhões
Dados do Banco Central divulgados nesta segunda-feira mostram que a Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 82,5% do Produto Interno Bruto em julho, equivalente a aproximadamente R$ 10,9 trilhões.
É o maior percentual registrado desde abril de 2021.
Desde o início do atual mandato de Lula, a relação dívida/PIB avançou mais de dez pontos percentuais.
Outro indicador oficial aponta na mesma direção.
A Dívida Pública Federal, que possui metodologia diferente da dívida bruta, encerrou julho em R$ 9,298 trilhões, segundo o Tesouro Nacional. Somente naquele mês, a apropriação de juros acrescentou R$ 85,53 bilhões ao estoque.
Portanto, chamar toda preocupação com as contas públicas de “fake news” encontra resistência nos próprios números oficiais.
Isso não significa, por outro lado, que o país esteja insolvente ou diante de uma explosão imediata da dívida — argumento que Gabrielli também rejeita.
Até dentro do governo existe preocupação
Talvez o maior contraponto à declaração de Gabrielli esteja dentro do próprio campo governista.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, vem defendendo medidas para controlar despesas e fortalecer o arcabouço fiscal. Ele também foi escalado para dialogar com agentes do mercado diante das preocupações sobre a trajetória das contas públicas.
A diferença de visão já provocou tensão dentro da própria campanha.
Segundo a Folha, declarações anteriores de Gabrielli sobre dívida e política fiscal provocaram críticas internas, inclusive do ex-ministro Fernando Haddad. Lula teria deixado claro que Gabrielli não atua como porta-voz da política econômica da campanha, embora continue coordenando a elaboração do programa de governo.
Isso cria uma situação politicamente curiosa:
se a preocupação fiscal é simplesmente “fake news”, por que o próprio núcleo econômico governista discute medidas para conter gastos e estabilizar a dívida?
Há números positivos — e eles também precisam entrar na conta
O cenário, entretanto, não é exclusivamente negativo.
O Governo Central registrou superávit primário de R$ 10,8 bilhões em julho, melhor resultado para o mês desde 2022. Em julho de 2025, havia ocorrido déficit de R$ 59,1 bilhões.
No acumulado de janeiro a julho de 2026, porém, o Governo Central ainda apresenta déficit de R$ 81,3 bilhões.
O Brasil também mantém reservas internacionais relevantes e não enfrenta atualmente uma crise cambial ou de balanço de pagamentos — pontos utilizados por Gabrielli para defender sua avaliação.
A discussão econômica, portanto, é mais complexa do que simplesmente escolher entre “Brasil quebrado” ou “fake news”.
Juros elevados tornam dívida ainda mais cara
Existe ainda outra preocupação.
O Tesouro elevou a previsão para a participação de títulos vinculados aos juros na composição da dívida pública. A fatia pode chegar a 53% em 2026, enquanto a Selic permanece elevada.
Quanto maior a parcela da dívida vinculada aos juros, maior tende a ser o impacto de taxas elevadas sobre o custo de financiamento do governo.
É justamente essa combinação entre dívida crescente, juros altos e necessidade de resultados fiscais mais robustos que alimenta o debate entre economistas.
“Fake news” ou problema que precisa ser enfrentado?
Gabrielli possui razão ao dizer que existem indicadores econômicos positivos e que o crescimento da dívida, isoladamente, não significa que o Brasil esteja diante de uma quebra iminente.
Mas classificar a preocupação fiscal simplesmente como “fake news” é uma conclusão muito mais difícil de sustentar diante dos dados.
A dívida bruta está em 82,5% do PIB.
O estoque alcançou aproximadamente R$ 10,9 trilhões.
E integrantes da própria equipe econômica defendem controle maior das despesas para impedir uma deterioração futura.
No fim, a discussão que deverá acompanhar a campanha presidencial não será sobre a existência da dívida — porque os números oficiais comprovam seu crescimento.
O debate será sobre como estabilizá-la, quanto será necessário cortar ou aumentar receitas e quem pagará a conta do ajuste.
E chamar essa discussão de “fake news” dificilmente fará os números desaparecerem.
Por: Redação MVE











