Por: Manuel Menezes
Há declarações que surpreendem. Outras beiram o absurdo. A mais recente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entra na segunda categoria. Ao afirmar que o povo deve “dar o cacete” em políticos que não cumprem suas promessas de campanha, Lula talvez tenha feito, sem perceber, a crítica mais dura ao próprio governo.
A frase poderia soar como um discurso de responsabilidade política se não viesse justamente de um presidente que, após quase quatro anos de mandato, enfrenta uma crescente insatisfação popular e uma longa lista de promessas questionadas por parte da população. O problema não é defender que governantes sejam cobrados. Isso é obrigação em qualquer democracia. O problema é defender a cobrança enquanto se comporta como se ela não se aplicasse ao Palácio do Planalto.
O brasileiro foi às urnas ouvindo promessas de melhoria econômica, redução do custo de vida, fortalecimento do poder de compra e reconstrução da confiança nacional. No entanto, o que muitos cidadãos relatam diariamente é uma realidade diferente. O preço dos alimentos continua pesando no orçamento das famílias, o crescimento econômico não se traduz em alívio para quem vive do próprio trabalho e a sensação de frustração cresce à medida que as promessas ficam para trás.
A fala de Lula revela também uma preocupante contradição. Quando a população cobra o governo, a resposta costuma ser a mesma: culpa-se a gestão anterior, o Congresso, o mercado, os empresários ou qualquer outro fator externo. Mas quando se trata de cobrar adversários políticos, o presidente parece defender um rigor que raramente aplica a si mesmo.
Mais grave ainda é a escolha das palavras. Um chefe de Estado deveria ser exemplo de equilíbrio, serenidade e responsabilidade institucional. Ao utilizar a expressão “dar o cacete”, Lula reforça um discurso agressivo e incompatível com a postura que se espera do principal líder político do país. O Brasil precisa de soluções, não de frases de efeito destinadas a gerar manchetes.
Se a regra proposta pelo presidente for levada a sério, os brasileiros têm todo o direito de perguntar: e as promessas do atual governo? E os compromissos assumidos durante a campanha? E as expectativas criadas diante de milhões de eleitores?
A verdade é simples. Quem pede que o povo cobre deve estar preparado para ser cobrado. Quem exige responsabilidade dos outros deve demonstrá-la primeiro. E quem ocupa a Presidência da República não pode agir como se estivesse permanentemente em campanha, atacando adversários enquanto tenta escapar do julgamento sobre os próprios resultados.
Lula tem razão em apenas um ponto: o eleitor não deve esquecer as promessas feitas pelos políticos. A diferença é que essa cobrança começa exatamente por quem está no comando do país.











