Por Manuel Menezes
As palavras têm peso. Na política, elas podem esclarecer os fatos ou tentar moldá-los conforme a conveniência do momento. Foi exatamente essa reflexão que surgiu após o governador Roberto Cidade afirmar que considera uma honra disputar a “reeleição” ao Governo do Amazonas.
A declaração pode parecer comum para muitos. Mas ela levanta um debate que não pode ser ignorado: é correto chamar de reeleição um mandato que não começou pelo voto direto do povo?
Roberto Cidade ocupa hoje legitimamente o cargo de governador. Isso não está em discussão. O que se discute é a narrativa construída em torno dessa condição.
Seu mandato teve origem em uma sucessão institucional, decorrente das circunstâncias políticas que levaram à vacância do cargo. Não foi resultado de uma eleição direta em que milhões de amazonenses escolheram seu nome nas urnas para governar o Estado durante quatro anos.
E é justamente por isso que a palavra “reeleição” desperta estranheza.
Para o cidadão comum, reeleição significa renovar, pelo voto popular, um mandato conquistado anteriormente nas urnas. Esse entendimento foi consolidado ao longo da história democrática brasileira e faz parte do imaginário político da população.
Ao utilizar esse termo sem qualquer contextualização, passa-se a impressão de que o atual mandato possui a mesma origem política daqueles conquistados diretamente pelo eleitor. E não possui.
Não se trata de discutir direitos políticos ou a eventual possibilidade jurídica de disputar um novo mandato. Esse debate pertence à Justiça Eleitoral.
A questão é política.
É moral.
É ética.
Quem pretende governar um estado deve ser o primeiro a tratar o eleitor com absoluta transparência.
Se Roberto Cidade acredita que fez um bom governo, tem todo o direito de apresentar seus resultados e pedir o voto da população. Isso faz parte da democracia.
Mas transformar uma sucessão em “reeleição” parece muito mais uma estratégia de comunicação do que uma descrição fiel da realidade política.
A democracia depende da confiança entre representantes e representados. Essa confiança começa pelo compromisso com a verdade dos fatos.
Quando conceitos consolidados passam a ser reinterpretados conforme o interesse político do momento, abre-se um precedente perigoso.
Hoje relativiza-se o significado de “reeleição”.
Amanhã, que outro conceito poderá ser adaptado para atender conveniências eleitorais?
O eleitor amazonense merece respeito.
Merece saber exatamente quem está pedindo seu voto e em quais circunstâncias essa pessoa chegou ao poder.
Não há desonra alguma em dizer que assumiu o governo por sucessão constitucional e que agora busca, pela primeira vez, a legitimação do voto popular.
Pelo contrário.
Seria um gesto de transparência.
O que causa desconforto é a tentativa de colocar no mesmo patamar político um mandato iniciado por sucessão e um mandato conquistado diretamente nas urnas.
A história política não pode ser reescrita por conveniência eleitoral.
Os fatos permanecem.
O povo amazonense saberá fazer seu julgamento nas urnas.
E a democracia será mais forte quanto mais seus líderes compreenderem que respeito ao eleitor começa pelo respeito à verdade.











