Por Manuel Menezes

Existe uma linha que jamais deveria ser apagada: uma coisa é defender a liberdade de imprensa; outra, muito diferente, é transformar uma entidade ligada ao jornalismo em instrumento explícito de apoio eleitoral.

Ao anunciar apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) fez uma escolha política. Tem direito de fazê-la. Mas essa escolha precisa ser chamada pelo nome: é posicionamento político-eleitoral, não manifestação da imprensa brasileira como um todo.

E é exatamente aí que está o meu protesto.

A ABI não é dona da imprensa

A sigla pode carregar “Imprensa” no nome. Possui história e relevância. Mas não recebeu procuração de todos os jornalistas, comunicadores, radialistas, portais, jornais e profissionais independentes deste país.

Eu trabalho com comunicação e a ABI não fala por mim.

Milhares de outros profissionais certamente têm posições políticas diferentes — inclusive jornalistas que apoiam Lula, jornalistas que fazem oposição e aqueles que não apoiam nenhum dos candidatos.

Isso é democracia.

O que não considero aceitável é deixar no ar a impressão de que uma associação pode colocar a palavra “imprensa” ao lado de uma candidatura presidencial como se estivesse representando toda uma categoria.

Não está.

Jornalismo deveria fiscalizar o palanque, não subir nele

O presidente da República — seja Lula ou qualquer outro — deveria encontrar diante de si uma imprensa independente, desconfiada e disposta a investigar.

É para isso que serve uma imprensa verdadeiramente livre.

Quando uma entidade historicamente ligada à defesa do jornalismo anuncia apoio formal à reeleição justamente de quem ocupa o Palácio do Planalto, surge uma contradição difícil de ignorar:

quem deveria fiscalizar o poder resolveu declarar preferência por quem deseja continuar exercendo esse poder.

Como cobrar independência amanhã depois de vestir a camisa eleitoral hoje?

Como exigir distância entre governo e imprensa se uma entidade do próprio setor decide entrar voluntariamente na disputa?

Não estou dizendo que jornalistas não possam ter posição política. Claro que podem.

Estou dizendo justamente o contrário: cada jornalista tem o direito de ter a sua — e nenhuma entidade deveria permitir que sua manifestação seja confundida com a posição coletiva da imprensa brasileira.

E não vamos apagar a história de Lula

Também existe algo profundamente incômodo nessa tentativa de apresentar a eleição como uma espécie de escolha moral previamente resolvida.

Lula foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, passou 580 dias preso e posteriormente teve suas condenações anuladas pelo STF por questões relacionadas à competência da Justiça Federal de Curitiba. No processo do triplex, o STF também reconheceu a parcialidade de Sergio Moro.

É indispensável registrar isso corretamente: Lula hoje não possui aquelas condenações válidas.

Mas uma decisão judicial posterior também não permite reescrever a história e fingir que as condenações, a prisão e todo o processo político e judicial que abalou o país simplesmente nunca aconteceram.

Um jornalista pode conhecer toda essa história e decidir votar em Lula.

Outro pode olhar para os mesmos acontecimentos e concluir exatamente o contrário.

Esse direito pertence ao cidadão, não a uma associação que pretenda simbolizar toda a imprensa.

Desde quando democracia significa votar em Lula?

Essa talvez seja a parte que mais me incomoda.

Não aceito a ideia de que apoiar determinado candidato seja apresentado como certificado de compromisso democrático.

Lula não é proprietário da democracia.

A esquerda não é proprietária da democracia.

A direita também não.

Democracia pertence ao povo brasileiro.

Quem vota em Lula participa da democracia. Quem vota contra Lula também. Quem critica o governo exerce democracia. Quem investiga autoridades fortalece a democracia. E quem denuncia abusos praticados por qualquer lado está exercendo uma das funções mais importantes do jornalismo.

Transformar uma candidatura em sinônimo de democracia é diminuir a própria democracia.

Imprensa livre não precisa de candidato de estimação

Minha concepção de jornalismo é outra.

Se Lula estiver no poder, fiscalize Lula.

Se amanhã seu adversário vencer, fiscalize o adversário.

Se houver suspeitas envolvendo esquerda, investigue.

Se envolver direita, investigue também.

Se atingir ministro, senador, governador, prefeito ou empresário, faça perguntas.

Jornalismo não existe para proteger político. Existe para incomodá-lo.

O governante que hoje recebe aplausos pode ser aquele sobre quem amanhã surgirão denúncias que precisarão ser investigadas.

É por isso que independência vale tanto.

Não em meu nome

Por isso faço questão de registrar publicamente:

ABI, não fale em nome de toda a imprensa.

A entidade decidiu apoiar Lula? Assuma sua decisão.

Seus dirigentes querem a reeleição do presidente? Digam claramente.

Se parte dos associados concorda? É direito deles.

Mas existem milhares de profissionais que não concordam. Existem comunicadores que rejeitam Lula. Existem jornalistas que rejeitam seus adversários. Existem aqueles que não aceitam transformar redação em comitê eleitoral.

Eu estou entre aqueles que acreditam que imprensa e poder precisam manter distância crítica, independentemente de quem esteja sentado na cadeira presidencial.

A imprensa brasileira é muito maior que uma associação.

É maior que Lula.

É maior que qualquer candidato.

É maior que esquerda e direita.

A imprensa não tem dono.

E quando uma entidade que carrega seu nome resolve abraçar uma candidatura presidencial, nós temos não apenas o direito, mas o dever de dizer:

jornalismo fiscaliza palanque. Jornalismo não deveria virar palanque.

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