EDITORIAL – Falhas recorrentes, promessas institucionais e a permanência de um problema que segue sem solução efetiva para a população do interior

WhatsApp
Facebook
Telegram
X
LinkedIn
Email
Descaso com o fornecimento de energia nas zonas rurais expõe abandono histórico do Sul do Amazonas

Por: Manuel Menezes

O cenário vivido nas comunidades rurais do Sul do Amazonas no que diz respeito ao fornecimento de energia elétrica é a expressão mais clara de um problema que se arrasta há anos sem a devida resposta do poder público e dos órgãos responsáveis. O que se vê, na prática, é um ciclo de promessas, reuniões, fiscalizações e anúncios institucionais que raramente se traduzem em melhoria concreta para quem vive nas regiões mais isoladas.

Os relatos recentes vindos do Distrito de Auxiliadora e de outras comunidades da região do Lago do Uruapiara escancaram essa realidade. Mesmo após a atuação de instituições como a Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM), em parceria com a Prefeitura de Humaitá e a Câmara Municipal, a população segue enfrentando oscilações graves, quedas constantes e instabilidade no sistema elétrico, com prejuízos diretos a equipamentos domésticos e estruturas públicas essenciais.

Não se trata de um problema pontual, mas de uma falha estrutural de planejamento e de manutenção que penaliza justamente quem mais depende do serviço público para sobreviver com dignidade. Enquanto centros urbanos contam com maior estabilidade e resposta mais rápida, comunidades rurais seguem à margem de um sistema que deveria ser universal e eficiente.

A situação relatada por moradores, com energia “indo e voltando várias vezes” em um curto intervalo de tempo, não apenas compromete o cotidiano das famílias, como também evidencia a fragilidade de um modelo de gestão que não consegue garantir sequer a estabilidade mínima do serviço. O resultado é previsível: equipamentos queimados, prejuízos acumulados e uma sensação crescente de abandono.

É preciso dizer com clareza que a realização de audiências públicas e visitas técnicas, embora importantes, não pode se tornar um fim em si mesmas. A população do interior não precisa apenas de diagnósticos repetidos, mas de soluções efetivas, prazos cumpridos e responsabilização clara quando o serviço falha de forma recorrente.

O que se observa, infelizmente, é uma distância cada vez maior entre a atuação institucional e a realidade vivida nas comunidades. O discurso de enfrentamento do problema não tem sido acompanhado da resolução prática, e isso aprofunda a desconfiança da população em relação ao poder público.

O Sul do Amazonas, em especial suas áreas rurais, não pode continuar sendo tratado como território de segunda categoria no acesso a serviços essenciais. Energia elétrica não é luxo, não é favor e tampouco pode ser tratada como um serviço instável e imprevisível. É um direito básico, fundamental para a sobrevivência, produção e dignidade das famílias.

Enquanto o problema persistir sem solução definitiva, o que estará em evidência não é apenas a falha de uma empresa ou de um sistema isolado, mas o fracasso contínuo de uma estrutura de gestão pública que ainda não conseguiu garantir o mínimo para sua população mais distante.

É urgente que as autoridades abandonem a lógica da resposta episódica e passem a enfrentar o problema com planejamento real, investimento contínuo e cobrança efetiva de resultados. O povo do interior do Amazonas não pode mais esperar.