Por Manuel Menezes
Flávio Dino decidiu usar Daniel Vorcaro para questionar André Mendonça. Então, pela mesma lógica, deveria estar disposto a olhar para tudo o que saiu do celular de Vorcaro — inclusive aquilo que alcança Andrei Rodrigues, o homem que Dino acaba de devolver ao comando da Polícia Federal.
Não pode haver uma verdade para atingir Mendonça e outra quando as mensagens chegam perto de Andrei.
Na decisão que reintegrou Andrei à direção-geral da PF nesta quarta-feira (9), Dino citou como elemento grave o encontro ocorrido entre Mendonça e Daniel Vorcaro em março de 2025. Mendonça afirma que a reunião tratou de uma ação sobre créditos de precatórios de interesse do Master e que sua decisão posterior foi contrária aos interesses do banqueiro.
Pois bem.
Se o encontro com Vorcaro é suficientemente relevante para Dino levantar dúvidas sobre Mendonça, o que devemos fazer com as mensagens do próprio Vorcaro envolvendo Andrei Rodrigues?
Ignorá-las?
Quando Vorcaro serve para atacar Mendonça
Dino foi duríssimo.
Ao reintegrar Andrei, questionou a atuação de Mendonça, falou em interferência nos trabalhos da Polícia Federal e levantou dúvidas sobre um ministro decidir questões relacionadas a fatos que o atingiam pessoalmente. Também criticou a suspensão de determinadas atividades de inteligência da PF.
Dino tem todo o direito de questionar Mendonça.
Aliás, eu defendo que Mendonça esclareça cada encontro, cada decisão e cada circunstância envolvendo Vorcaro.
O que não aceito é dois pesos e duas medidas.
Porque Vorcaro não aparece apenas numa agenda com Mendonça.
O celular do ex-banqueiro revelou coisa muito mais incômoda.
Vorcaro pediu ajuda envolvendo Andrei
Relatório da Polícia Federal reúne mensagens recuperadas do celular de Vorcaro nas quais ele pede a um interlocutor a atuação de “Andrei e Paulo” em seu favor.
Segundo a investigação, as referências seriam ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. A PF aponta a suspeita de que o interlocutor para quem Vorcaro enviou essas mensagens seja Alexandre de Moraes.
E o conteúdo não é banal.
Em uma das mensagens, Vorcaro queria que o pedido fosse reforçado junto a Andrei e Paulo para evitar uma medida de integrantes de escalões inferiores.
Em outra, a situação fica ainda mais delicada: o banqueiro solicita ao interlocutor que tente sensibilizar Andrei para adiar uma ação da Polícia Federal, porque, segundo Vorcaro, isso poderia impedir a quebra do Master.
Repito o ponto essencial para não transformar suspeita em condenação: não há, até agora, demonstração de que Moraes tenha atendido ao pedido de Vorcaro, nem de que Andrei ou Gonet tenham realizado a intervenção solicitada pelo banqueiro. A extração também não recuperou eventuais respostas do interlocutor em parte dessas conversas.
Mas alguém pode dizer seriamente que isso não merece investigação?
Dino quer olhar para Vorcaro? Então olhe para tudo
É aqui que a régua de Dino começa a me incomodar.
Para atacar a decisão de Mendonça, Dino considera relevante mencionar que o ministro encontrou Vorcaro.
Tudo bem.
Então considere igualmente relevante que Vorcaro pediu ajuda a um interlocutor apontado pela PF como possivelmente sendo Moraes e, nesse pedido, queria atuação junto ao próprio Andrei Rodrigues.
A coerência deveria ser elementar.
Se Vorcaro compromete Mendonça por ter estado numa reunião, as mensagens de Vorcaro envolvendo Andrei também precisam ser tratadas com absoluta seriedade.
Não estou dizendo que uma coisa prova a outra.
Estou cobrando a mesma régua.
E Dino fez exatamente o contrário
Andrei havia sido afastado preventivamente por André Mendonça na terça-feira (8). A medida também determinou que a Corregedoria da Polícia Federal apurasse a produção dos relatórios de inteligência que estavam no centro da crise.
Menos de um dia depois, Dino determinou sua reintegração.
E não apenas simbolicamente.
Andrei voltou à direção-geral da Polícia Federal. Leandro Almada também foi reconduzido à Diretoria de Inteligência. Dino sustentou que Andrei havia cumprido determinações judiciais de Moraes e que seu afastamento estava prejudicando investigações sob a relatoria de Dino.
É justamente aqui que faço a pergunta:
era realmente indispensável devolver imediatamente Andrei ao comando da instituição que precisa esclarecer fatos que também o mencionam?
Afastamento cautelar não é condenação.
Andrei poderia ser afastado enquanto tudo fosse esclarecido e, comprovada a inexistência de irregularidade, retornar ao cargo.
Dino preferiu outro caminho.
Andrei tem direito à presunção de inocência — mas não a uma blindagem
Quero deixar isso muito claro.
Não afirmo que Andrei Rodrigues seja corrupto.
As mensagens conhecidas não provam corrupção, nem demonstram que ele tenha atendido ao pedido de Vorcaro.
Mas presunção de inocência não transforma cargo público em propriedade particular.
Muito menos a direção-geral da Polícia Federal.
Andrei ocupa uma das posições mais poderosas da República. A PF conduz investigações capazes de atingir banqueiros, empresários, políticos, ministros e integrantes do próprio sistema de Justiça.
Quando o nome de seu diretor aparece em mensagens nas quais um banqueiro investigado tenta conseguir atuação em seu favor, o mínimo que a sociedade pode exigir é independência absoluta para esclarecer os fatos.
Quem investigará com liberdade?
Essa pergunta se torna ainda mais importante porque o próprio afastamento determinado por Mendonça tinha natureza preventiva.
A justificativa apresentada era permitir que servidores da PF desempenhassem suas funções sem constrangimentos indevidos enquanto a Corregedoria apurasse o episódio.
Dino discorda e considera que Andrei estava apenas cumprindo ordens judiciais.
É uma interpretação possível.
Mas existe outra preocupação igualmente legítima:
como garantir que uma investigação interna sobre acontecimentos envolvendo a cúpula da PF seja conduzida com absoluta independência enquanto a mesma cúpula permanece integralmente no comando?
Isso não é condenar Andrei.
É defender a Polícia Federal.
O problema é a seletividade
Dino quer falar do encontro de Mendonça com Vorcaro?
Vamos falar.
Investigue-se.
Esclareça-se.
Publiquem-se, dentro dos limites legais, as informações necessárias.
Mas então façamos exatamente a mesma coisa com as mensagens envolvendo Andrei.
Façamos com Gonet.
Façamos com Moraes.
Façamos com qualquer autoridade mencionada.
O que não pode acontecer é Vorcaro virar uma espécie de testemunha conveniente: sua proximidade serve para levantar suspeita contra Mendonça, mas seus pedidos envolvendo outras autoridades passam a exigir uma montanha de ressalvas antes mesmo de serem investigados.
Ou Vorcaro é relevante para compreender o caso Master ou não é.
E existe uma coincidência política impossível de ignorar
Há ainda a dimensão política.
Andrei Rodrigues foi escolhido pelo presidente Lula para comandar a Polícia Federal.
Flávio Dino foi ministro da Justiça de Lula e posteriormente indicado pelo presidente ao Supremo.
Essas relações não provam favorecimento.
Mas justamente por existirem tornam necessária uma postura ainda mais rigorosa para afastar qualquer aparência de proteção política.
Dino deveria ser o primeiro interessado em demonstrar que sua decisão nada tem a ver com relações políticas.
E a melhor maneira de fazer isso seria defender uma investigação completa e independente.
Não transformar Andrei em personagem aparentemente indispensável ao funcionamento da Polícia Federal.
A PF é maior que Andrei Rodrigues
Esse talvez seja o ponto mais importante.
A Polícia Federal não pertence a Lula.
Não pertence a Dino.
Não pertence a Moraes.
Não pertence a Mendonça.
E também não pertence a Andrei Rodrigues.
É uma instituição de Estado.
Se a retirada temporária de um diretor provoca o “caos administrativo” descrito por Dino, então o problema institucional é ainda maior do que imaginávamos.
A PF precisa funcionar independentemente de quem esteja sentado na cadeira de diretor-geral.
A régua precisa ser a mesma
Eu não quero condenação antecipada de Andrei.
Quero investigação.
Não quero condenação antecipada de Moraes.
Quero investigação.
Não quero que Mendonça seja declarado inocente simplesmente porque entrou em confronto com os demais.
Quero que ele também explique seu encontro com Vorcaro e todos os atos praticados no caso Master.
Mas é justamente aí que está a diferença.
A mesma régua para todos.
Se Dino acha grave Mendonça ter encontrado Vorcaro, deve considerar igualmente grave descobrir que Vorcaro tentava obter, por meio de um interlocutor apontado pela PF como possivelmente sendo Moraes, atuação junto ao diretor-geral da própria Polícia Federal.
Não para condenar Andrei.
Mas para investigar.
A pergunta que Dino ainda precisa responder
Dino resolveu enfrentar Mendonça.
Resolveu questionar sua imparcialidade.
Resolveu citar Vorcaro.
Resolveu reintegrar Andrei.
O que ele não conseguiu eliminar foi a contradição política que sua própria decisão criou.
Porque agora sabemos que o mesmo Vorcaro usado para lançar dúvidas sobre Mendonça aparece em mensagens tentando conseguir ajuda que passaria por Andrei Rodrigues.
E Andrei acaba de recuperar, pelas mãos de Dino, o comando integral da Polícia Federal.
Por isso termino com uma pergunta que considero inevitável:
se a proximidade com Vorcaro é motivo para desconfiar de Mendonça, por que os pedidos de Vorcaro envolvendo Andrei não foram motivo suficiente para Dino esperar a investigação avançar antes de devolver-lhe o comando da PF?
Essa é a régua que precisa ser explicada.
Porque Justiça não pode ter uma medida para adversários e outra para aliados.
Quando o rigor depende do nome de quem está sendo investigado, deixa de parecer Justiça e começa a parecer proteção.











