Por Manuel Menezes
Um vídeo divulgado neste domingo (20) acrescentou um novo elemento à controvérsia envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, e o empresário Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.
As imagens, gravadas em 22 de agosto de 2025 no Aeroporto Santos Dumont, mostram Moraes e Viviane desembarcando de um Legacy 650. Segundo o Poder360, a aeronave pertencia à Fraction 024 e era operada pela Prime Aviation; empresas ligadas à operação da aeronave tinham participação minoritária de fundo associado a Vorcaro.
Vídeo confronta negativa anterior
O ponto que tornou as imagens particularmente relevantes é uma declaração anterior do próprio ministro.
Quando reportagens afirmaram, em março de 2026, que Moraes e Viviane haviam realizado viagens em aeronaves de empresas de Vorcaro ou ligadas a ele, o gabinete do ministro classificou as informações como falsas e declarou que Moraes jamais havia viajado em avião de Daniel Vorcaro.
Agora, o escritório Barci de Moraes confirmou que a Prime Aviation foi contratada para serviços de táxi aéreo e reconheceu que, em determinados voos, Viviane foi acompanhada pelo marido. A defesa apresentada é que a escolha das aeronaves cabia à operadora contratada.
O escritório também afirma que Vorcaro nunca esteve presente nesses voos e nega vínculo pessoal com proprietários das aeronaves, contrato advocatício com a Prime Aviation ou aquisição de cotas da companhia.
E há muito mais do que o jatinho
A discussão não ocorre isoladamente.
O escritório de Viviane manteve um contrato de prestação de serviços advocatícios com o Banco Master que previa R$ 3,6 milhões mensais por três anos, alcançando aproximadamente R$ 131 milhões caso fosse cumprido integralmente. O contrato vigorou até a liquidação do banco, em novembro de 2025.
Documentos obtidos a partir do celular de Vorcaro acrescentaram outro fato: metadados analisados pela Polícia Federal indicaram que um arquivo da minuta contratual foi editado por um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” antes da assinatura.
O próprio escritório confirmou que Moraes teve acesso ao documento, mas explicou que isso ocorreu porque sua área de compliance consultou o ministro, marido da sócia-diretora, para verificar eventual impedimento decorrente de processos no STF. Segundo o escritório, não havia impedimento e Moraes nunca julgou causa envolvendo o Banco Master.
Mensagens também mencionam aeronaves
Segundo informações provenientes da investigação da Polícia Federal, há ainda mensagens de julho de 2025 nas quais Vorcaro perguntava ao proprietário da Prime Aviation se o casal estava utilizando aeronaves e solicitava que material da frota fosse enviado ao escritório de Viviane.
O Poder360 também relata a existência de uma negociação para um segundo contrato, de R$ 50 milhões, envolvendo a Viking Participações. Uma versão anterior da negociação previa parte do pagamento relacionada a participações em empresas detentoras de aeronaves e reembolso pelo uso delas; a versão final do documento de maio de 2025, entretanto, não faz menção expressa aos aviões.
As explicações agora convivem com registros concretos
Nenhum desses elementos, isoladamente, estabelece responsabilidade criminal de Moraes ou Viviane. Também não há, nas fontes consultadas, condenação do casal por irregularidade relacionada a esses fatos.
Mas a divulgação do vídeo torna legítimo o escrutínio público sobre a compatibilidade entre as explicações apresentadas anteriormente e os registros que posteriormente vieram a público.
O escritório sustenta que contratar uma empresa de táxi aéreo não significa manter relação pessoal com Vorcaro e que a escolha específica das aeronaves era responsabilidade da operadora. Moraes, por sua vez, afirma não ter julgado processos do Banco Master.
Do outro lado estão o contrato milionário do escritório com o Master, as mensagens apreendidas pela PF, a participação de Moraes na análise da minuta contratual e, agora, imagens mostrando o ministro e sua esposa desembarcando de uma aeronave ligada ao universo empresarial investigado.
O debate, portanto, deixa de depender apenas de versões conflitantes: há documentos, mensagens e imagens que precisam ser confrontados com as explicações apresentadas pelos envolvidos, preservando-se ao mesmo tempo a presunção de inocência e a necessidade de transparência quando autoridades públicas estão no centro de fatos de evidente interesse público.
Leia a íntegra da nota do escritório Barci de Moraes:
“O escritório Barci de Moraes informa que contrata serviços de táxi aéreo de diferentes empresas, entre elas a Prime Aviation, cujos serviços foram utilizados em determinadas ocasiões. Em nenhum dos voos realizados em aeronaves da Prime Aviation com integrantes do escritório esteve presente Daniel Vorcaro ou qualquer outra pessoa alheia ao escritório.
“Em determinados voos, Viviane Barci de Moraes foi acompanhada por seu marido, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A contratação dos
serviços de táxi aéreo segue critérios operacionais e não envolve qualquer vínculo pessoal com proprietários de aeronaves ou operadores específicos. A escolha das aeronaves utilizadas cabe às próprias empresas de aviação civil contratadas, neste caso, a Prime Aviation.
“O escritório Barci de Moraes reitera que não possui contrato de prestação de serviços advocatícios com a Prime Aviation, tampouco realizou qualquer aquisição de cotas da empresa. Qualquer dúvida, estou à disposição”.













