Por: [Edson Sampaio]
O Brasil já não funciona mais dentro das regras tradicionais da política — e talvez esse seja o maior sinal de alerta do momento. O que está em curso não é apenas desgaste de governo, nem crise passageira entre Executivo e Legislativo. É uma transformação estrutural do poder, silenciosa, progressiva e perigosa, que coloca em dúvida a própria capacidade de governar o país.
As recentes derrotas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Congresso Nacional não podem ser tratadas como episódios isolados. Elas revelam um padrão claro de enfraquecimento político em um ambiente onde o poder deixou de ser centralizado e passou a ser disputado em múltiplas frentes ao mesmo tempo. A rejeição do nome indicado pelo governo ao Supremo Tribunal Federal — algo que não ocorria há mais de um século — não foi apenas uma derrota simbólica, mas um recado direto do Senado sobre quem, de fato, tem força no atual cenário político.
A isso se soma a derrubada de decisões do Executivo pelo Congresso, consolidando uma sequência de movimentos que evidenciam uma ruptura na lógica tradicional do presidencialismo brasileiro. O modelo em que o governo articula, negocia e, ao final, governa com relativa estabilidade simplesmente deixou de existir.
Hoje, o Congresso não atua mais como base de sustentação previsível. Ele age como poder autônomo, com interesses próprios, decisões fragmentadas e pouca disposição para manter acordos duradouros. A política brasileira entrou em uma fase onde maioria não significa controle, apoio não significa lealdade e negociação não garante resultado.
O governo Lula, conhecido historicamente por sua capacidade de articulação, enfrenta agora um cenário completamente diferente daquele que marcou seus mandatos anteriores. A rejeição de uma indicação construída ao longo de meses de negociação expõe um problema central: a articulação tradicional perdeu eficácia em um sistema político que se reorganizou de forma descentralizada.
Mais do que isso, o ambiente atual é influenciado diretamente pelo calendário eleitoral. A disputa de 2026 já começou, ainda que informalmente, e isso muda o comportamento de parlamentares, que passam a agir menos como base de governo e mais como atores independentes, focados em sobrevivência política e capital eleitoral.
O resultado é um país onde o poder está pulverizado. O Executivo governa, mas não controla. O Congresso decide, mas não assume integralmente os custos. E o Judiciário, frequentemente acionado para arbitrar conflitos, também se torna parte do jogo político. Esse modelo cria uma instabilidade permanente, onde nenhuma decisão é definitiva e nenhum acordo é plenamente confiável.
O risco disso é evidente. Um sistema político sem eixo claro de comando abre espaço para paralisia, radicalização e perda de confiança institucional. Quando o governo não consegue implementar sua agenda e o Congresso não assume a responsabilidade total pelas decisões que impõe, o resultado é um vazio de liderança — e esse vazio tende a ser ocupado por soluções simplistas, discursos extremos ou rupturas mais profundas.
Lula não perdeu o governo, mas também não domina mais o cenário. Governa pressionado, negocia sob risco e decide sem garantia de sustentação. Cada movimento precisa ser calculado em múltiplas dimensões, porque qualquer avanço em um campo pode significar derrota em outro.
O Brasil, por sua vez, entrou definitivamente em uma nova fase: a do conflito permanente. Não há mais estabilidade duradoura, não há mais previsibilidade institucional e não há mais um centro único de poder. Há disputa constante, tensão contínua e um sistema que opera no limite.
E quando um país passa a viver assim, o problema deixa de ser apenas político. Passa a ser estrutural.
Porque quando ninguém manda de fato, o risco é simples — o país deixa de avançar.











