Por: Manuel Menezes
A declaração do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ao comentar o programa de recuperação de celulares roubados, ultrapassa o campo da infelicidade retórica e entra no terreno da grave irresponsabilidade institucional.
A fala foi a seguinte:
“Eu vou efetivamente despachar o sinalzinho para quem tiver com o telefone roubado, devolver, porque senão poderá ter consequências. A dúvida é que eu não quero devolver na delegacia, eu quero devolver no correio. Porque devolver na delegacia, as pessoas têm até medo, porque eu não sabe o tipo de delegado que vai encontrar ou o tipo de policial.”
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Ao proferir essas palavras, o presidente não apenas comenta uma alternativa logística para devolução de aparelhos roubados — ele generaliza e lança suspeição sobre toda a estrutura da Polícia Civil brasileira.
Trata-se de uma fala que, na prática, deslegitima o trabalho de delegados e policiais civis em todo o país — profissionais que diariamente enfrentam o crime organizado, investigam homicídios, recuperam bens roubados e sustentam, com enorme esforço técnico e operacional, uma das engrenagens mais importantes do sistema de Justiça.
A Polícia Civil não é uma abstração nem um conceito distante. É uma instituição composta por servidores que atuam sob risco, pressão e, muitas vezes, com limitações estruturais severas. Reduzir essa realidade a uma ideia de que o cidadão deve temer o ambiente da delegacia é um equívoco que compromete a imagem institucional de forma injusta e desproporcional.
Mais grave ainda é o efeito simbólico dessa fala quando vem do chefe do Poder Executivo. A autoridade máxima do país deveria ser a principal defensora da confiança nas instituições do Estado — especialmente daquelas responsáveis por garantir a segurança pública. Quando ocorre o oposto, abre-se espaço para erosão da credibilidade institucional e para o enfraquecimento da relação entre população e polícia.
Não se trata de negar a existência de falhas pontuais em qualquer estrutura pública. Mas sim de rejeitar generalizações que atingem indistintamente milhares de profissionais que exercem suas funções com seriedade, técnica e compromisso com a lei.
Em um país que enfrenta o avanço do crime organizado e a escalada da violência, o discurso público deveria caminhar no sentido de fortalecer as instituições de segurança, não de alimentá-las com desconfiança generalizada.
A fala presidencial, nesse contexto, revela um grave erro de percepção institucional e um descompasso com a realidade enfrentada diariamente pelas forças policiais. Ao invés de contribuir para a valorização da segurança pública, termina por fragilizar simbolicamente todo o sistema diante da sociedade.
O Brasil precisa de lideranças que reforcem a confiança nas instituições do Estado. Segurança pública não se constrói com insinuações — se constrói com respeito, investimento e reconhecimento a quem está na linha de frente do combate ao crime.











