Gonet fala em combater “Estados paralelos”, mas o Brasil já vive sob o avanço do crime organizado

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Enquanto autoridades prometem agir contra facções e milícias nas eleições de 2026, brasileiros convivem há anos com regiões onde o crime organizado desafia o Estado, impõe regras e exerce influência cada vez maior sobre a vida da população.

Por: Manuel Menezes

Quando o procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirma que o Brasil não pode conviver com “Estados paralelos” controlados por facções criminosas e milícias, ele apenas reconhece uma realidade que milhões de brasileiros enfrentam há anos. A pergunta que fica é: por que as autoridades estão agindo como se essa descoberta tivesse acontecido agora?

O discurso é bonito. A prática é outra.

Enquanto Brasília realiza seminários, concede entrevistas e produz discursos sobre a defesa da democracia, o crime organizado segue expandindo territórios, impondo regras, cobrando taxas ilegais, controlando comunidades inteiras e influenciando a vida de milhões de brasileiros. Em algumas regiões do país, o cidadão teme mais a facção local do que a ausência do próprio Estado.

A declaração de Gonet revela algo preocupante: as instituições finalmente admitem um problema que há muito tempo já saiu do controle. Não estamos falando de uma ameaça futura. Não se trata de um risco hipotético para as eleições de 2026. Trata-se de uma realidade consolidada em diversas partes do Brasil.

Em muitas comunidades, candidatos precisam pedir autorização para entrar. Em outras, campanhas políticas acontecem sob a sombra do medo. Existem regiões onde o crime organizado exerce mais autoridade que prefeitos, vereadores, governadores e até mesmo forças de segurança.

Mas o que chama atenção é a seletividade das prioridades das instituições.

Nos últimos anos, o país assistiu a uma verdadeira cruzada contra discursos considerados inadequados, publicações em redes sociais e supostos casos de desinformação. Para essas situações, não faltaram investigações, decisões rápidas, bloqueios e mobilizações institucionais.

Já quando o assunto é o avanço das facções criminosas, a resposta costuma ser lenta, burocrática e insuficiente diante da gravidade do problema.

Enquanto cidadãos comuns enfrentam processos por opiniões, criminosos fortemente armados seguem dominando territórios, movimentando bilhões de reais e ampliando sua influência sem encontrar resistência proporcional do Estado.

A verdade é que o Brasil não chegou ao ponto de conviver com “Estados paralelos” por acaso. Essa realidade é resultado de anos de omissão, falta de planejamento e incapacidade de enfrentar organizações criminosas que cresceram até se tornarem um desafio nacional.

Agora, às vésperas de mais uma eleição, surgem promessas de combate às facções. Mas a população já ouviu esse discurso muitas vezes.

O que falta ao Brasil não são diagnósticos. O que falta são ações efetivas.

Se Paulo Gonet realmente acredita que o país não pode conviver com Estados paralelos, então é hora de as instituições demonstrarem isso na prática. Menos discursos, menos seletividade e mais combate a quem realmente ameaça a população brasileira.

Porque, para quem vive sob o domínio do crime organizado, a maior ameaça à democracia não está em uma postagem na internet. Está no traficante que controla comunidades, no criminoso que impõe suas próprias leis e na incapacidade do Estado de garantir sua presença onde ela mais é necessária.

E essa é uma realidade que nenhuma declaração oficial consegue esconder.