Por Manuel Menezes

Há palavras que ganham um peso ainda maior quando saem da boca de um presidente da República. E Lula, que construiu sua trajetória política apresentando-se como defensor dos trabalhadores, deveria saber disso melhor do que ninguém.

Ao falar sobre os profissionais da coleta de lixo, Lula classificou a atividade como uma “profissão muito pobre” e afirmou que “não é uma profissão que dá orgulho”. Também relacionou esse trabalho à falta de oportunidade para estudar.

A declaração é infeliz e merece crítica.

Desde quando ter diploma define a dignidade de alguém? Desde quando recolher o lixo produzido diariamente por toda a sociedade é motivo para alguém não sentir orgulho?

O gari enfrenta sol, chuva, mau cheiro, trânsito e riscos para executar um serviço essencial. Basta imaginar uma cidade passando poucos dias sem coleta para compreender a importância desses trabalhadores.

É justo registrar que, na continuação de sua fala, Lula reconheceu justamente essa importância e tentou chamar atenção para a invisibilidade social enfrentada pelos mais pobres. Mas isso não apaga o problema das palavras escolhidas.

Para defender o trabalhador, não é necessário diminuir sua profissão.

E a contradição chama ainda mais atenção porque Lula sempre explorou politicamente sua própria origem humilde e sua história como trabalhador. Justamente por isso deveria compreender que uma profissão simples pode proporcionar tanto orgulho quanto qualquer outra.

Não existe trabalho honesto indigno.

O gari não precisa ter vergonha de dizer o que faz. Pelo contrário: é a sociedade que deveria reconhecer mais aqueles que executam diariamente um serviço que muitos não aceitariam fazer.

O trabalhador da limpeza pública precisa de respeito, segurança, salário digno e valorização — não de ouvir do presidente da República que exerce uma profissão que “não dá orgulho”.

Lula tentou denunciar a invisibilidade dos mais pobres, mas escolheu palavras que acabaram atingindo justamente trabalhadores que mereciam ser valorizados.

Não existe “profissão muito pobre”. Existe trabalhador que ainda recebe muito menos reconhecimento do que merece.

E trabalho honesto, presidente, é sempre motivo de orgulho.

Manuel Menezes

Essa versão está mais enxuta sem perder a pancada política do editorial.

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