Por Manuel Menezes
A cena exibida durante a sabatina da Globo resume uma característica preocupante de Luiz Inácio Lula da Silva: quando confrontado com uma pergunta incômoda, o presidente prefere atacar a pergunta, diminuir o jornalista e reescrever a própria história.
Renata Vasconcellos questionava Lula sobre o crescimento da dívida pública, que ultrapassou R$ 10 trilhões e alcançou cerca de 82% do Produto Interno Bruto. Em vez de apresentar metas objetivas para controlar o endividamento, Lula resolveu ensinar à jornalista como ela deveria fazer seu trabalho.
Segundo ele, Renata deveria ter começado a pergunta elogiando o presidente por ter registrado superávit primário durante “oito anos do seu primeiro mandato”.
Mas desde quando um mandato presidencial brasileiro dura oito anos?
O mandato que ganhou quatro anos
A Constituição é clara: o mandato do presidente da República tem duração de quatro anos, conforme estabelece o artigo 82 da Constituição Federal.
O primeiro mandato de Lula foi de 2003 a 2006. O segundo foi de 2007 a 2010. Os oito anos correspondem, portanto, à soma de dois mandatos consecutivos — e não ao “primeiro mandato”, como afirmou o presidente.
Pode ter sido um lapso? Pode. Mas, até que seja corrigida, a declaração continua sendo uma informação falsa pronunciada diante de milhões de brasileiros.
E existe uma ironia difícil de ignorar: Lula errou justamente no momento em que tentava corrigir a jornalista. Se Renata Vasconcellos tivesse repetido exatamente a frase ditada pelo presidente, teria levado ao público uma evidente falsidade histórica.
Lula tentou dar uma aula e acabou revelando que precisava revisar a própria biografia.
Arrogância diante de uma pergunta legítima

O problema não está apenas no erro sobre a duração do mandato. O episódio revela a dificuldade de Lula para conviver com o contraditório.
A pergunta era legítima, objetiva e de interesse público. A dívida brasileira influencia os juros, o crédito, os investimentos, o emprego e o custo de vida das famílias. Todo candidato à Presidência tem a obrigação de explicar como pretende enfrentar esse problema.
Lula, entretanto, preferiu desqualificar a abordagem da jornalista e sugerir que ela deveria ter iniciado a pergunta fazendo propaganda de seus governos.
Isso não é resposta. É tentativa de controlar o roteiro.
Em uma democracia, presidentes respondem a perguntas difíceis. Governantes de inclinação autoritária tentam escolher as perguntas, impor a narrativa e transformar jornalistas em auxiliares de palanque.
Não é necessário inventar diagnóstico de “psicopatia” para condenar a cena. Os fatos já mostram algo politicamente grave: arrogância, descontrole retórico, delírio de grandeza e uma postura incompatível com quem deveria prestar contas à população.
VEJA NO VÍDEO:
A Globo e o dinheiro da publicidade oficial
O episódio ganha outra dimensão quando observamos o volume de publicidade federal destinado ao Grupo Globo.
Segundo levantamento do Poder360 baseado nos dados disponíveis da Secretaria de Comunicação da Presidência, o Grupo Globo recebeu R$ 267 milhões em publicidade do Palácio do Planalto entre janeiro de 2023 e 15 de junho de 2026. O valor correspondeu a 25,6% de toda a propaganda contabilizada da Presidência no período, colocando o conglomerado muito à frente dos demais grupos de mídia. O próprio levantamento ressalta que a conta não inclui os gastos de empresas estatais e de diversos ministérios.
Outro levantamento, considerando a publicidade na televisão da administração federal direta, mostrou que os canais da Globo concentraram 49,4% dos recursos destinados ao setor nos três primeiros anos do atual governo. Os dados também foram extraídos do sistema oficial de comunicação do governo.
Esses números não provam que a cobertura jornalística da Globo tenha sido comprada — e um editorial responsável não deve inventar provas enquanto denuncia uma falsidade. Mas os valores justificam uma cobrança permanente por transparência, independência editorial e firmeza diante do poder.
Publicidade oficial é paga com dinheiro do contribuinte, não com recursos pessoais de Lula. Esse dinheiro compra espaço para campanhas institucionais; não compra silêncio, reverência ou submissão jornalística.
Se a Globo é a maior destinatária dessas verbas, sua obrigação de manter distância crítica do governo torna-se ainda maior. E Lula não adquire, por causa desses anúncios, o direito de humilhar jornalistas ou determinar como as perguntas devem ser feitas.
Lula não corrigiu Renata; foi corrigido pela realidade

O momento mais revelador da sabatina não foi apenas a confusão entre um mandato e dois. Foi a certeza com que Lula pronunciou uma informação impossível enquanto exigia que a jornalista o elogiasse.
Esse é o perigo de um político cercado por bajuladores: com o passar do tempo, ele começa a tratar a própria versão dos acontecimentos como verdade absoluta. Qualquer pergunta vira provocação; qualquer contestação vira injustiça; qualquer jornalista que não o reverencie passa a ser tratado como incompetente.
Lula não é dono da história, da Globo, das perguntas nem do Brasil.
Seu primeiro mandato durou quatro anos. A dívida pública merece explicações. Jornalistas têm o direito de fazer perguntas incômodas. E o dinheiro da publicidade federal pertence à sociedade.
Naquela sabatina, Lula tentou enquadrar Renata Vasconcellos. No fim, foi ele quem terminou enquadrado pelos fatos.
