EDITORIAL | Maconha entra na eleição: marcha pela legalização em Brasília exibe símbolo de apoio a Lula

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Ato defendeu legalização e autocultivo da cannabis; imagens também registraram referências eleitorais entre participantes, incluindo boné com o nome de Lula, sem evidência de participação oficial da campanha petista no evento

Por Manuel Menezes

A Marcha da Maconha realizada em Brasília neste domingo (20) ultrapassou, nas imagens do evento, o debate exclusivo sobre política de drogas. Em meio às bandeiras da cannabis, faixas pela legalização e defesa do autocultivo, também apareceram símbolos eleitorais e manifestações individuais de preferência política.

Uma das fotografias registra uma participante usando um boné vermelho com o nome “Lula” e uma estrela, enquanto acompanha o ato. Em outras imagens, participantes aparecem utilizando adesivos e materiais com referências políticas.

É importante deixar uma coisa absolutamente clara: a presença desses símbolos não prova que Lula, o PT ou sua campanha tenham organizado, financiado ou participado oficialmente da Marcha da Maconha. Não há, nas informações publicadas pelo Poder360, indicação disso.

Mas o registro existe. E, em pleno período eleitoral, considero legítimo discutir o encontro entre militância política e uma pauta tão controversa quanto a legalização da cannabis.

Segundo o Poder360, aproximadamente 200 pessoas participaram da 18ª Marcha da Maconha do Distrito Federal. O movimento defendeu legalização, autocultivo e mudanças na política de drogas.

A imagem que incomoda também precisa ser mostrada

As fotografias são reveladoras do ambiente da manifestação.

Há uma enorme bandeira com uma folha de cannabis. Há faixas proclamando que “a proibição mata” e defendendo maconha medicinal. Há cartazes pela legalização. E há pessoas aparentemente consumindo cigarros artesanais durante a manifestação.

Tudo isso faz parte de um movimento que possui o direito constitucional de defender mudanças na legislação.

Mas direito de manifestação não significa imunidade à crítica.

Eu me recuso a tratar uma discussão dessa dimensão como se fosse apenas uma festa, uma manifestação cultural ou uma simples escolha individual.

Estamos falando de drogas e das consequências que qualquer mudança na legislação pode produzir sobre milhões de brasileiros.

Maconha medicinal não pode virar atalho para outro debate

Existe outro ponto que considero fundamental.

Tratamento medicinal envolvendo derivados da cannabis e liberação recreativa da maconha são discussões diferentes.

Um medicamento pode envolver indicação profissional, controle sanitário, dosagem, fiscalização e acompanhamento. Isso não significa automaticamente defender a liberação irrestrita para consumo recreativo.

Quando as duas pautas aparecem misturadas nas mesmas palavras de ordem, considero que o debate perde clareza.

Se existe evidência científica para determinado tratamento, que ele seja analisado pelas autoridades sanitárias com rigor científico.

Mas utilizar a palavra “medicinal” como argumento genérico para encerrar qualquer questionamento sobre legalização recreativa seria simplificar uma questão muito mais complexa.

E quem fala pelas crianças e adolescentes?

É aqui que minha preocupação aumenta.

Quando se fala em legalização, é indispensável discutir idade mínima, fiscalização, concentração das substâncias, acesso por adolescentes, consumo em locais públicos, direção sob efeito da droga, publicidade e mercado ilegal.

Quem defende uma mudança profunda na política brasileira de drogas precisa apresentar respostas para essas questões.

Não basta dizer “legalize”.

Legalizar ou regulamentar significa estabelecer um modelo que produzirá consequências concretas.

E o Estado terá de lidar com elas.

O Brasil já atravessa uma mudança

O país já modificou aspectos importantes de sua política sobre cannabis.

Em 2024, o Supremo Tribunal Federal decidiu que portar maconha para consumo pessoal não constitui infração penal. Isso, entretanto, não significou a legalização geral da cannabis no Brasil. O próprio julgamento estabeleceu distinções importantes entre usuário e tráfico.

Paralelamente, o país possui regulamentação específica relacionada a produtos derivados da cannabis para determinadas finalidades medicinais.

Portanto, não estamos diante de uma discussão abstrata. Decisões institucionais já estão alterando o tratamento jurídico dado ao tema.

E agora aparecem as cores da eleição

É justamente por isso que considero politicamente relevante a fotografia da participante usando um boné de Lula.

Repito: uma apoiadora usando o nome de Lula não transforma a Marcha da Maconha em manifestação oficial do presidente ou de sua campanha.

Seria irresponsável afirmar isso sem provas.

Mas também seria estranho fingir que a imagem não existe.

Quando símbolos de candidatos aparecem dentro de manifestações que defendem determinadas políticas públicas, surge naturalmente uma pergunta para a campanha representada por aquele símbolo: qual é exatamente sua posição sobre aquela pauta?

Essa pergunta deve valer para Lula e para qualquer outro candidato.

Não por causa de uma fotografia isolada, mas porque estamos em uma eleição presidencial e os brasileiros têm direito de saber claramente o que cada candidatura pretende fazer em relação à política de drogas.

Não transformem maconha em símbolo de modernidade

Discordo profundamente da romantização do consumo de drogas.

Também discordo da ideia de que questionar a legalização seja automaticamente sinal de atraso.

Uma sociedade moderna não é aquela que simplesmente libera ou proíbe tudo. É aquela que analisa consequências, observa evidências e estabelece regras capazes de proteger a população.

Os participantes da marcha possuem o direito de defender a legalização.

Eu tenho o direito de olhar para aquelas mesmas imagens e perguntar:

Que Brasil queremos construir depois que as faixas forem recolhidas e a marcha terminar?

Porque uma decisão sobre drogas não termina no Eixão de Brasília.

Ela chega às escolas, às famílias, aos hospitais, às ruas e às estruturas de segurança pública.

A eleição de 2026 precisa discutir isso com clareza.

Sem esconder as bandeiras. Sem transformar slogans em respostas. E sem fugir das consequências.