Por: [Manuel Menezes]
A manhã desta segunda-feira marcou a estreia de Roberto Cidade (União Brasil) no comando direto do Executivo Estadual. Na coletiva de imprensa realizada na Sede do Governo, o tom foi milimetricamente calculado para transmitir estabilidade. No entanto, observadores atentos, o que se viu foi um silêncio eloquente: uma gestão que assume o Palácio sem o crivo das urnas e carregando um pesado histórico de dúvidas éticas.
A Retórica da Eficiência
Roberto Cidade utilizou seu tempo de fala para assegurar que o Amazonas não sofrerá com a renúncia de Wilson Lima. Falou em “zelar pelo Estado”, “garantir pagamentos” e “manutenção de obras”. Contudo, o discurso de eficiência administrativa soa frágil quando confrontado com a realidade de uma ascensão fruto de uma manobra política articulada nos bastidores do poder.
”Vim para a sede do Governo para garantir que o trabalho continue”, afirmou Cidade. Mas a pergunta é direta: continuidade de qual trabalho? Do serviço público ou da manutenção de privilégios de um grupo que se reveza nas cadeiras do poder?
O “Elefante na Sala”: R$ 600 Milhões em Contratos
O ponto mais crítico da coletiva foi a ausência total de esclarecimentos sobre as denúncias de conflito de interesses. Conforme amplamente divulgado, empresas ligadas à família de Roberto Cidade detêm contratos que superam R$ 600 milhões anuais com o Estado — justamente as pastas que ele, agora como governador, passa a chefiar.
Ao sentar na cadeira de governador, Cidade torna-se o ordenador de despesas de faturas que beneficiam seu próprio núcleo familiar. Na coletiva de hoje, esse tema foi solenemente ignorado. Para os críticos, a presença de Cidade na Sede do Governo não é apenas uma transição constitucional, é a oficialização de um modelo onde o fornecedor e o pagador tornam-se a mesma figura política.
Análise: Um Governo para a Assembleia, não para o Povo
A movimentação de Roberto Cidade na Sede do Governo nesta manhã confirmou que seu público-alvo são os 24 deputados da Assembleia Legislativa (Aleam), que definirão seu destino na eleição indireta de amanhã (7).
A pergunta é contundente: enquanto Cidade posa de gestor na Compensa, o Amazonas segue refém de um “balcão de negócios” onde os interesses empresariais parecem ditar o ritmo da política. A coletiva de hoje apenas reforçou a imagem de um governador que fala em estabilidade, mas governa sob a sombra da omissão.











