Em uma sessão recente da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Alexandre de Moraes subiu o tom contra o que classificou como a “estratégia de likes”.
Segundo o magistrado, vivemos um momento onde parlamentares e figuras públicas abandonaram o debate técnico sobre saúde, educação e segurança pública para se dedicarem exclusivamente ao engajamento digital através do confronto e do ataque às instituições.
No entanto, a fala do ministro abre uma brecha para uma crítica inevitável: como cobrar profundidade no debate político se, durante o período eleitoral, o próprio Moraes, à frente do TSE, atuou como um “editor-chefe” da nação, decidindo quais fatos eram “relevantes” ou “ofensivos” para o público?
A Seletividade do que Pode ser Dito
Moraes lamenta que não se discuta segurança, mas a opinião pública recorda com clareza as eleições de 2022. Naquela ocasião, o tribunal presidido por ele proibiu a veiculação de conteúdos que ligavam o então candidato Lula a figuras ditatoriais como Nicolás Maduro e Daniel Ortega.
Embora as relações diplomáticas e a afinidade ideológica entre o PT e esses regimes sejam documentadas há décadas, o Judiciário entendeu que trazer esses fatos à tona configurava “desinformação” ou “descontextualização”.
Ao proibir que se falasse das amizades internacionais do atual presidente ou de seu passado judicial, o TSE não protegeu a democracia; ele higienizou o debate, retirando do eleitor o direito de confrontar o candidato com suas próprias contradições.
O “Engajamento” que Incomoda o Supremo
A crítica de Moraes à busca por visibilidade digital soa contraditória para muitos juristas. Para a oposição, o “engajamento” não é apenas uma busca por likes, mas a única ferramenta de sobrevivência política em um cenário onde canais oficiais são derrubados por decisões monocráticas e contas em redes sociais são bloqueadas sem o devido processo legal transparente.
Enquanto o ministro condena o “palco” das redes sociais, críticos apontam que o próprio STF se tornou um palco político.
Ao ditar o que é “verdade” sobre o passado de um político ou o que é “estratégia de desinformação”, a Corte deixou de ser o árbitro das regras para se tornar um jogador ativo no resultado das partidas.
Conclusão: O Silêncio Imposto
É fácil criticar a falta de propostas sobre saúde e segurança quando o sistema judiciário cria um ambiente onde falar sobre a corrupção do passado ou sobre alianças ideológicas perigosas pode resultar em multas milionárias ou prisão.
Se o debate político brasileiro hoje parece um “ringue de likes”, talvez seja porque os temas de fundo — a ética, o histórico dos candidatos e a liberdade de expressão — foram interditados por aqueles que hoje reclamam da superficialidade da política.
A democracia não morre pela busca de visibilidade; ela morre quando o direito de falar a verdade, por mais dura que seja, é rotulado como crime.
Nota: A fala citada de Alexandre de Moraes ocorreu em abril de 2026, reforçando sua postura de combate ao uso das redes sociais como ferramenta de pressão política sobre o Judiciário.











