EDITORIAL | O poder público não pode ter dono: Roberto Cidade deve respostas ao Amazonas

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Suspeitas envolvendo o SISREG, contratos milionários de empresas ligadas à família e questionamentos sobre o uso da estrutura estadual aumentam a pressão para que Roberto Cidade dê respostas claras à população do Amazonas.

Por Manuel Menezes

O que está acontecendo no Amazonas exige respostas claras.

Os prints publicados pelo Menezes Virtual Eye levantam uma questão grave porque envolvem aquilo que deveria estar acima de qualquer disputa eleitoral: a saúde pública.

As mensagens mencionam pedidos de exames, dificuldades no atendimento e até a afirmação de que bastaria passar “o nome da chefia” para determinada demanda ser resolvida. Os prints, por si só, não comprovam compra de votos nem demonstram que Roberto Cidade tenha determinado favorecimento no SISREG. Mas justificam investigação e transparência sobre os critérios utilizados para atender pacientes.

A pergunta é inevitável: existe alguém furando uma fila que deveria ser igual para todos?

Se existe, quem autorizou?

Se não existe, o governo precisa explicar essas mensagens e demonstrar que não há interferência política no acesso a consultas e exames.

Contratos familiares também exigem explicações

Essa controvérsia não aparece isoladamente.

A relação de empresas da família Cidade com o Governo do Amazonas é anterior à chegada de Roberto Cidade ao Executivo. Reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em 2024, mostrou que a Navegação Cidade, pertencente ao pai de Roberto Cidade, recebeu R$ 61,2 milhões somente em 2023 em contratos com órgãos estaduais. Outra empresa, cujos sócios eram irmãos de Cidade, teve contratos que passaram de R$ 1,6 milhão em 2020 para R$ 17,4 milhões em 2023.

Cidade declarou na ocasião que estava afastado das empresas desde 2018 e que as contratações decorreram de procedimentos licitatórios regulares.

Ter familiares contratando com o Estado não comprova ilegalidade ou favorecimento. Mas contratos milionários envolvendo parentes de quem ocupa posições centrais de poder exigem transparência máxima.

Um governador escolhido pela Assembleia

Há ainda um fato político que não pode ser ignorado.

Roberto Cidade chegou ao atual mandato de governador sem uma eleição direta da população amazonense. Após as renúncias de Wilson Lima e do vice Tadeu de Souza, a Assembleia Legislativa realizou uma eleição indireta e, em maio de 2026, Cidade foi escolhido pelos 24 deputados estaduais para exercer o mandato-tampão.

Agora, disputando nas urnas a continuidade no cargo, sua obrigação de esclarecer qualquer suspeita envolvendo a estrutura estadual torna-se ainda maior.

Saúde não é moeda eleitoral

Para mim, este é o ponto central:

SISREG não pertence a governador. Exame não pertence a candidato. Consulta não é favor político. Hospital não é comitê eleitoral.

Uma pessoa que espera meses por atendimento não pode precisar conhecer uma “chefia” para conseguir aquilo que deveria ser garantido pelo Estado.

Por isso, os prints precisam ser apurados até o fim.

Não cabe condenação antecipada. Mas também não cabe silêncio.

Se não houve favorecimento, que o governo apresente os registros e esclareça os critérios dos atendimentos mencionados.

Se houve interferência política, que os responsáveis sejam identificados e respondam perante os órgãos competentes.

Governos passam. O Estado permanece.

E nenhuma autoridade — Roberto Cidade ou qualquer outro governador — pode tratar a máquina pública como extensão de um projeto eleitoral.

A máquina pública pertence ao povo do Amazonas.