PF bate à porta de Adail Filho: deputado vira alvo de operação que investiga corrupção, desvios e lavagem no Amazonas

WhatsApp
Facebook
Telegram
X
LinkedIn
Email
Operação Dinastia do Lago cumpre 29 mandados; investigação começou após apreensão de R$ 1,25 milhão em dinheiro vivo e alcança contratos públicos e recursos destinados a Coari

Por: Redação MVE

A Polícia Federal bateu à porta do grupo político da família Pinheiro nesta quarta-feira (16). O deputado federal Adail Filho (MDB-AM) foi alvo de busca e apreensão no âmbito da Operação Dinastia do Lago, investigação que apura suspeitas graves relacionadas a contratos públicos da Prefeitura de Coari, principal reduto político do parlamentar e de seu pai, o prefeito Adail Pinheiro.

A operação foi autorizada no âmbito do Supremo Tribunal Federal e cumpre 29 mandados de busca e apreensão em Manaus e Coari, além de medidas de afastamento de agentes públicos.

Segundo comunicado oficial da Polícia Federal, a investigação apura a possível existência de uma estrutura envolvendo empresários, agentes públicos e terceiros destinada a fraudar licitações, desviar recursos públicos e movimentar dinheiro para pagamento de vantagens indevidas e ocultação da origem e dos destinatários dos valores.

A PF afirma que os fatos investigados podem configurar, em tese, organização criminosa, fraude à licitação, corrupção, peculato e lavagem de dinheiro.

É importante fazer a distinção jurídica: Adail Filho ser investigado e alvo de busca não significa que esteja condenado pelos crimes apurados. Caberá à investigação reunir provas e, posteriormente, às instituições competentes determinar eventuais responsabilidades.

Mas politicamente a situação é grave.

R$ 1,25 MILHÃO EM DINHEIRO VIVO

A origem da investigação ajuda a dimensionar o tamanho do problema.

Segundo a Polícia Federal, tudo começou depois que aproximadamente R$ 1,25 milhão em espécie foram encontrados com três empresários que viajavam em um voo entre Manaus e Brasília, em maio de 2025.

A investigação avançou sobre as relações empresariais e financeiras do grupo.

Em abril deste ano, reportagem de A Crítica revelou que Alexandre de Moraes havia determinado a abertura de inquérito para investigar suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo, entre outros nomes, Adail Filho e Adail Pinheiro.

Na decisão reproduzida pela reportagem, Moraes registrou que as apurações haviam identificado transações consideradas suspeitas e empresas que possuíam contratos com o Município de Coari. O ministro também mencionou a existência de recursos públicos enviados ao município por meio de emendas parlamentares de autoria de Adail Filho.

Agora a investigação avançou para buscas e apreensões.

PF VAI À CASA DO DEPUTADO

Agentes federais cumpriram mandado na residência de Adail Filho em Manaus nesta quarta-feira.

A medida representa um novo estágio da investigação: policiais passaram a procurar documentos, equipamentos e outros elementos que possam confirmar ou afastar as hipóteses levantadas durante a apuração.

Adail Filho não é um personagem periférico. É deputado federal em exercício pelo Amazonas e possui influência política significativa em Coari.

E é justamente por isso que as explicações precisam ser completas.

Não basta transformar uma investigação dessa dimensão em simples disputa política. Quando a Polícia Federal cumpre uma ordem judicial dentro da residência de um deputado federal em uma investigação sobre possível desvio de dinheiro público, o interesse é de toda a sociedade amazonense.

PAI DE ADAIL FILHO É AFASTADO

A operação atingiu também o pai do parlamentar, Adail Pinheiro, prefeito de Coari.

Reportagens locais informam que ele foi afastado do comando da Prefeitura por determinação judicial, juntamente com outros agentes públicos alcançados pelas cautelares.

O afastamento também não significa condenação.

Mas amplia consideravelmente a dimensão institucional do caso.

De um lado está o prefeito do município afastado do cargo. Do outro, seu filho deputado federal sendo alvo de busca e apreensão.

E, no centro da investigação, aparecem justamente contratos públicos, licitações e movimentações financeiras que a PF considera merecedoras de aprofundamento.

COARI E AS EMENDAS DE ADAIL FILHO

Outro aspecto que merece atenção é a quantidade de recursos públicos destinados pelo próprio parlamentar a Coari.

Em 2024, a Folha de S.Paulo já havia mostrado que mais de R$ 10,8 milhões em emendas Pix de Adail Filho haviam sido direcionados ao município. Naquele momento, Coari era administrada por Keitton Pinheiro, sobrinho do deputado.

A destinação de emenda parlamentar a um município ligado politicamente ao deputado não constitui, por si só, irregularidade.

O problema é outro: agora existe uma investigação federal que procura saber justamente se recursos públicos e contratos municipais integraram um esquema de fraudes e desvios.

Por isso, é indispensável descobrir o caminho do dinheiro.

Quem recebeu?

Quais empresas foram contratadas?

Os serviços foram efetivamente executados?

Os preços eram compatíveis?

Houve direcionamento de licitações?

E, principalmente: algum recurso público terminou beneficiando agentes públicos ou terceiros de maneira ilegal?

São essas respostas que a investigação precisa fornecer.

DEPUTADO JÁ ESTAVA SOB INVESTIGAÇÃO

A operação desta quarta-feira não surgiu do nada.

O inquérito contra Adail Filho já havia sido aberto meses antes. Em abril, reportagem de A Crítica mostrou que a investigação chegou ao STF porque envolve deputado federal, autoridade com foro por prerrogativa de função.

Segundo as informações então divulgadas, investigadores identificaram movimentações consideradas suspeitas relacionadas às empresas examinadas e contratos firmados com a Prefeitura de Coari.

Naquela ocasião, Adail Filho havia negado envolvimento com os empresários presos.

Essa versão também precisa ser considerada.

Agora, porém, a Polícia Federal avançou para uma operação ostensiva e cumpriu mandado de busca e apreensão contra o parlamentar.

ADAIL FILHO PRECISA DAR EXPLICAÇÕES AO AMAZONAS

Independentemente do resultado eleitoral ou das alianças partidárias de 2026, o caso exige esclarecimentos públicos.

Adail Filho é representante do Amazonas na Câmara dos Deputados. Recursos oriundos de emendas parlamentares são dinheiro público. Contratos municipais são pagos pela população.

Portanto, não estamos falando apenas de uma disputa entre adversários políticos.

Estamos falando de dinheiro do contribuinte.

A presunção de inocência precisa ser respeitada. Busca e apreensão não é condenação. Investigação não significa culpa.

Mas presunção de inocência também não significa ausência de cobrança pública.

O parlamentar precisa explicar sua relação com os empresários investigados, esclarecer as emendas destinadas a Coari e responder aos fatos que motivaram o avanço da investigação.

DINASTIA DO LAGO COLOCA GRUPO POLÍTICO SOB PRESSÃO

Até o próprio nome escolhido pela Polícia Federal para a operação — Dinastia do Lago — chama atenção diante de um grupo familiar que há anos exerce enorme influência política sobre Coari.

Mas será a investigação, e não o nome da operação ou a disputa eleitoral, que deverá estabelecer responsabilidades.

A sociedade precisa acompanhar documentos, movimentações financeiras, contratos e provas.

Se não houve participação de Adail Filho em qualquer irregularidade, isso precisa ficar demonstrado.

Se houve, os responsáveis precisam responder dentro da lei.

O que não cabe mais é tratar milhões de reais em recursos públicos como assunto restrito aos gabinetes políticos.

Com R$ 1,25 milhão em dinheiro vivo na origem da investigação, 29 mandados de busca e apreensão, prefeito afastado e um deputado federal alvo de buscas, a Operação Dinastia do Lago deixou de ser apenas mais uma suspeita nos bastidores de Coari.

Virou um caso que exige explicações ao Amazonas inteiro.