Por: Redação MVE
BRASÍLIA (DF) – A investigação sobre as relações entre pessoas próximas à família do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o empresário Antônio Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, ganhou um novo e preocupante capítulo.
Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que a lobista Roberta Luchsinger pressionou Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para que ele atuasse em favor de negócios de interesse do Careca do INSS no Ministério da Saúde.
As tratativas envolviam a possível contratação de produtos derivados de canabidiol e kits destinados à realização de testes de dengue. Nenhum dos contratos chegou a ser firmado.
O material integra uma investigação preliminar e uma representação encaminhada pela PF ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. O magistrado autorizou a abertura de um inquérito para apurar suspeita de tráfico de influência. As informações foram divulgadas pela Folha de S.Paulo e reproduzidas pelo Poder360.
Lobista queria que “Fábio se mexesse”
Em mensagens enviadas no dia 23 de janeiro de 2025 a Gustavo Gaspar, ex-assessor do senador Weverton Rocha, Roberta teria reclamado da pressão exercida pelo Careca do INSS para que os negócios avançassem rapidamente.
Segundo os diálogos, o empresário queria uma definição antes da mudança de Lulinha para a Espanha. Roberta afirmou ter conversado com o filho do presidente e escreveu que seria importante “o Fábio se mexer”.
Ao analisar as conversas, a Polícia Federal concluiu que as demandas apresentadas pelo Careca do INSS dependeriam de uma possível intervenção de Lulinha.
O conteúdo chama a atenção porque Fábio Luís não ocupava qualquer cargo no governo federal. Mesmo assim, aparece nas mensagens como uma pessoa que poderia atuar junto a integrantes da cúpula do Ministério da Saúde.
Até o momento, entretanto, não foi apresentada prova conclusiva de que Lulinha tenha efetivamente realizado a intervenção solicitada pela lobista.
Pressão sobre o número 2 da Saúde
As mensagens também citam Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger, que ocupava o cargo de secretário-executivo do Ministério da Saúde e era o segundo homem mais importante da pasta.
A PF afirma que Roberta buscava uma forma de “capitalizar” o Careca do INSS e pressionava para que o ministério adquirisse os kits de testes de dengue.
Em outra conversa, realizada em maio de 2025, a lobista disse ao então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que seria necessário “colocar o Fábio em cima do Berger”. Marcola respondeu de forma afirmativa.
Meses depois, Roberta e Marcola teriam combinado um churrasco e discutido a presença de Swedenberger. Segundo a lobista, o próprio Lulinha teria solicitado a aproximação.
Em novembro, Roberta voltou a procurar Marcola e afirmou que Fábio, então em Portugal, havia pedido que ele pressionasse Berger sobre as demandas pendentes.
Essa sequência reforçou a interpretação da PF de que a lobista enxergava no filho do presidente e em integrantes do gabinete presidencial caminhos capazes de facilitar o acesso ao Ministério da Saúde.
Negócios não foram concretizados
As negociações mencionadas nas mensagens não resultaram em contratos com o governo federal.
Uma das tratativas envolvia medicamentos à base de canabidiol. Outra dizia respeito ao fornecimento de kits para testes de dengue.
O Ministério da Saúde declarou, em manifestação relacionada ao caso, que não houve contratação dos produtos citados. A pasta também informou que o canabidiol não está incorporado ao Sistema Único de Saúde.
A inexistência de contrato é um elemento importante da investigação. Porém, não elimina os questionamentos sobre as tentativas de acesso e a possível utilização de relações pessoais para pressionar autoridades públicas.
Careca do INSS foi alvo da Operação Sem Desconto
Antônio Camilo Antunes ganhou projeção nacional ao se tornar um dos principais alvos da Operação Sem Desconto, responsável por investigar um esquema suspeito de retirar ilegalmente recursos de aposentados e pensionistas.
O empresário está preso desde setembro de 2025. Gustavo Gaspar, que também aparece nos diálogos, foi preso na mesma investigação e atualmente cumpre prisão domiciliar.
Segundo a Polícia Federal, Roberta Luchsinger recebeu pagamentos de empresas relacionadas ao Careca do INSS. A investigação busca esclarecer se esses recursos estavam associados à atuação da lobista junto a órgãos do governo.
As defesas de Roberta e Antônio Camilo não haviam se manifestado sobre as novas mensagens até a publicação das reportagens.
Defesa de Lulinha nega intervenção
A defesa de Fábio Luís Lula da Silva afirma que ele jamais realizou reuniões ou interferiu em contratos para beneficiar o Careca do INSS.
O advogado Marco Aurélio de Carvalho declarou que o material reunido pela Polícia Federal seria um “quebra-cabeça de ilações”, formado por interpretações que ainda não apresentariam conclusões definitivas.
A defesa também afirma que Lulinha começou a organizar sua mudança para a Espanha em 2024 e que seus vínculos profissionais no país europeu não possuem relação direta ou indireta com o governo brasileiro.
Não há, até o momento, prova divulgada de que o presidente Lula tenha participado das tratativas ou soubesse dos pedidos feitos pela lobista.
Caso amplia desgaste político do governo
Mesmo sem a comprovação de que Lulinha tenha realizado a intervenção, o conteúdo das mensagens provoca forte desgaste para o governo.
O filho do presidente aparece citado como alguém que poderia influenciar decisões dentro do Ministério da Saúde, apesar de não possuir função pública. Ao mesmo tempo, um ex-chefe de gabinete de Lula surge nas conversas como interlocutor para chegar ao então secretário-executivo da pasta.
O episódio se torna ainda mais grave porque os interesses mencionados estavam relacionados ao Careca do INSS, investigado por um esquema que teria atingido aposentados e pensionistas.
O governo Lula precisa explicar se autoridades receberam pressões, se reuniões foram realizadas e quais providências foram adotadas para impedir que relações pessoais fossem utilizadas na tentativa de beneficiar interesses privados.
A inexistência dos contratos impede que se afirme que houve prejuízo aos cofres públicos nessa negociação específica. Mas as mensagens reveladas pela investigação deixam uma pergunta que o Palácio do Planalto não poderá responder apenas com silêncio: por que lobistas acreditavam que o filho do presidente poderia influenciar o segundo homem mais poderoso do Ministério da Saúde?
Enquanto não houver respostas claras, o caso continuará alimentando suspeitas sobre tráfico de influência e ampliando o desgaste político ao redor da família presidencial.











