Por: Manuel Menezes
O recente evento do Partido dos Trabalhadores (PT) revelou um capítulo emblemático e preocupante da política contemporânea brasileira: a tentativa deliberada de revestir de autoridade divina o projeto de poder liderado por Luiz Inácio Lula da Silva. Ao conduzir um momento de oração que não apenas abençoou as figuras de Lula e da primeira-dama Janja, mas que profetizou vitórias eleitorais e legitimou ações de governo como desígnios do sagrado, o PT expôs o que há de mais frágil na relação entre fé e política no país: a instrumentalização do divino para fins pragmáticos de manutenção de poder.
A Profanação do Sagrado pelo Pragmatismo
A utilização de linguagem religiosa para “blindar” Lula e o seu governo contra críticas — rotulando a oposição como “demonização” e elevando a continuidade da gestão do PT a um imperativo de fé — representa uma perigosa inversão de valores. Quando o altar se torna um palanque, a religião perde sua função de questionamento moral e passa a ser utilizada como ferramenta de marketing político.
Essa estratégia de “sacralização” do líder não é nova, mas, ao ser adotada pelo PT de forma explícita, revela o desespero do partido em romper a barreira de desconfiança junto ao eleitorado evangélico. Contudo, o que se observa não é um diálogo genuíno com esses fiéis, mas uma tentativa de mimetizar formas religiosas para capturar votos. Ao invocar o nome de Deus para sustentar a candidatura de Lula ou um modelo de governança, o partido não promove a integração da fé na vida pública; pelo contrário, ele a profana, reduzindo a transcendência à conveniência eleitoral.
A Política como Doutrina e a Fé como Escudo
O perigo dessa prática reside no fechamento do debate democrático. Ao transpor a disputa política para o campo do “sagrado contra o profano”, o PT e seus aliados afastam o governo do necessário escrutínio racional. Se o projeto de governo de Lula é apresentado como algo que “pertença ao Senhor”, a crítica política deixa de ser uma divergência administrativa ou ideológica e passa a ser vista, pelos olhos de quem utiliza essa retórica, como uma oposição a uma vontade superior.
Isso cria um ambiente onde:
- O debate público é sufocado: A discordância política contra Lula e o PT é tratada como heresia, inibindo o pensamento crítico.
- A responsabilidade é diluída: Problemas históricos de corrupção e ineficiência administrativa que marcaram gestões do PT são mascarados sob um manto de “proteção divina”.
- A laicidade é posta em xeque: O Estado, que deveria ser neutro, passa a adotar narrativas que favorecem o governo de Lula, utilizando a fé como um “salvo-conduto” para a permanência institucional.
Conclusão: A Ética como Caminho, não a Profecia
A política brasileira clama por transparência, eficiência e ética, elementos que não dependem de orações, mas de gestão pública e responsabilidade. O uso de um “culto” para glorificar Lula e Janja não resolve a crise de representatividade que o PT enfrenta, nem convence o cidadão que espera políticas públicas robustas em vez de promessas proféticas.
A instrumentalização da fé é um artifício de curto prazo que cobra um preço alto a longo prazo: o desgaste da própria religião e a erosão das instituições democráticas. Para o PT e para Lula, a lição deveria ser clara: a legitimidade de um governo não se mede por “profecias” eleitorais ou pela canonização de seus líderes, mas pelo respeito aos limites do poder e pela entrega de resultados que promovam a cidadania — e não a dependência — do povo. Em uma democracia, o altar deve permanecer separado da urna, e a fé, preservada da voracidade do poder.
Como você analisa a reação do eleitorado religioso frente a esse tipo de discurso: trata-se de um movimento de aproximação eficaz ou de um distanciamento ainda maior entre a base crente e o projeto do PT?
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