Por Manuel Menezes
Existe uma pergunta que Humaitá precisa ter coragem de fazer nesta eleição: até quando vamos ser uma cidade procurada para dar votos, mas que depois precisa bater à porta dos outros para conseguir representação?
Não escrevo isso para dizer que alguém deve votar em Felipe Lobo simplesmente porque ele nasceu em Humaitá. Ninguém merece voto por certidão de nascimento. Voto precisa ser conquistado com capacidade, compromisso, propostas e confiança.
Mas existe uma reflexão que não pode mais ser evitada.
Se Humaitá tem a possibilidade de construir uma representação política própria na Assembleia Legislativa, por que uma parcela da população ainda considera mais natural fortalecer candidatos que aparecem no município durante a eleição e depois mantêm seus principais compromissos políticos em outras regiões?
É preciso compreender como funciona a política.
Deputado estadual representa todo o Amazonas. Isso é verdade. Depois de eleito, sua obrigação institucional não termina na cidade onde nasceu ou onde recebeu mais votos.
Mas política também é feita de prioridades.
Todo parlamentar possui municípios onde estão suas principais lideranças, seus grupos políticos, sua história e sua base eleitoral. E, naturalmente, quando chegam as disputas por emendas, investimentos, obras e atenção política, esses vínculos têm peso.
É justamente aí que Humaitá precisa pensar no futuro.
O VOTO ACABA EM UM DIA. AS NECESSIDADES DA CIDADE CONTINUAM POR QUATRO ANOS.
Durante uma campanha aparecem candidatos de todos os lugares.
Chegam lideranças, reuniões, promessas, estruturas políticas e pessoas interessadas em conquistar alguns milhares de votos.
Passada a eleição, porém, quem continua morando aqui?
Quem continua vendo a estrada que precisa ser recuperada, o hospital que necessita de equipamentos, a comunidade rural pedindo atenção, o produtor precisando de apoio, o jovem procurando oportunidade e a prefeitura buscando recursos?
É muito fácil transformar o eleitor em número durante algumas semanas.
Difícil é estar presente durante quatro anos.
E existe algo ainda mais preocupante: quando o voto passa a ser tratado como mercadoria.
Se alguém troca sua decisão eleitoral por R$ 100, R$ 200, R$ 500 ou qualquer vantagem imediata, precisa entender que está colocando preço em algo que deveria valer quatro anos.
Depois não adianta perguntar:
“Cadê o deputado?”
Porque aquele relacionamento político começou e terminou na eleição.
Enquanto isso, os problemas continuam chegando à porta da prefeitura, dos vereadores e das lideranças locais.
A população cobra saúde, educação, infraestrutura, ramais, esporte, assistência social e geração de emprego.
E o prefeito, seja Dedei Lobo hoje ou qualquer outro amanhã, precisa procurar Brasília, o Governo do Estado, senadores e deputados atrás dos recursos que o município sozinho não consegue bancar.
Agora pense:
quanto mais forte seria Humaitá se tivesse uma representação estadual profundamente comprometida com a cidade trabalhando ao lado do prefeito e das demais lideranças?
Essa é a discussão.
Não se trata apenas de Felipe Lobo.
Trata-se de Humaitá.
OUTRAS CIDADES ENTENDERAM A IMPORTÂNCIA DE CONSTRUIR BASES POLÍTICAS FORTES
A história eleitoral recente do Amazonas ajuda a entender isso.
Coari é um exemplo de município que historicamente construiu lideranças com forte base local. Em 2022, Adail Filho recebeu 12.247 votos somente em Coari, sua maior votação municipal, e terminou eleito deputado federal com 90.028 votos em todo o Amazonas.
Itacoatiara também oferece uma reflexão interessante.
Na eleição de 2022, Cabo Maciel recebeu 8.012 votos em Itacoatiara, sua maior votação entre os municípios amazonenses, e terminou eleito deputado estadual com 35.853 votos.
Os exemplos não significam que esses parlamentares pertençam exclusivamente a essas cidades. Um deputado representa o Estado inteiro.
O que eles demonstram é outra coisa:
uma base eleitoral organizada tem força.
Município que concentra força política aumenta sua capacidade de sentar à mesa.
Município que pulveriza seus votos entre dezenas de candidatos corre o risco de entregar milhares de votos e, no final, não construir nenhuma representação verdadeiramente ligada às suas necessidades.
E HUMAITÁ?
Essa é a pergunta que incomoda.
Humaitá possui importância estratégica no sul do Amazonas. É uma cidade universitária, produtiva, localizada em uma região fundamental para a integração do Estado e possui demandas enormes de infraestrutura, saúde, educação, produção rural e desenvolvimento.
Por que não pensar grande?
Por que não desejar que Humaitá volte a ter força própria dentro da Assembleia?
Felipe Lobo está colocando seu nome à disposição.
Cabe ao eleitor analisar sua trajetória, suas propostas, sua capacidade e decidir livremente se ele merece ou não o voto.
Mas rejeitá-lo simplesmente para entregar o voto a alguém que aparece de quatro em quatro anos também merece reflexão.
E aqui está o ponto central deste editorial:
não venda por alguns reais o poder político que sua cidade precisará durante quatro anos.
O dinheiro recebido hoje acaba amanhã.
A necessidade de uma ambulância não acaba.
O ramal que precisa ser recuperado continua lá.
A escola continua precisando de investimento.
O hospital continuará precisando de equipamentos.
Os jovens continuarão precisando de emprego e oportunidade.
E Humaitá continuará precisando de alguém para defender seus interesses onde as decisões são tomadas.
NÃO É UMA ELEIÇÃO APENAS SOBRE UM NOME
Talvez esse seja o maior erro.
Olhar para Felipe Lobo e enxergar somente Felipe Lobo.
A questão é maior.
A candidatura de um filho de Humaitá coloca diante da população a oportunidade de discutir se o município quer reconstruir sua própria força política estadual.
Felipe, evidentemente, se eleito, terá obrigação de representar os 62 municípios amazonenses.
Mas Humaitá pode ter novamente alguém na Assembleia que conheça nossas comunidades, nossas estradas, nossa economia, nossas dificuldades e, principalmente, saiba onde fica nossa porta.
Representação política não é favor. É estratégia de desenvolvimento.
Por isso, antes de escolher seu candidato, faça algumas perguntas:
Quem estará aqui depois da eleição?
Quem conhecerá nossos problemas sem precisar que alguém explique onde fica Humaitá?
Quem terá compromisso de cobrar recursos para o município?
Quem poderá ser encontrado quando a campanha acabar?
E, principalmente:
Humaitá continuará sendo apenas um lugar onde candidatos vêm buscar votos ou voltará a ser uma cidade capaz de mandar sua própria voz para dentro da Assembleia Legislativa?
Essa decisão não pertence ao prefeito.
Não pertence a Felipe Lobo.
Não pertence aos grupos políticos.
Pertence ao povo de Humaitá.
E cada eleitor terá nas mãos muito mais do que um voto.
Terá a oportunidade de decidir qual será o peso político de Humaitá nos próximos quatro anos.
O voto passa. A representação fica.
Humaitá precisa decidir se continuará apenas elegendo os representantes dos outros — ou se chegou novamente a hora de construir o seu.











