Por: Manuel Menezes
O governo Lula prepara uma nova linha de crédito voltada para motociclistas que trabalham em aplicativos de entrega e transporte. Na teoria, a medida parece positiva. Afinal, milhões de brasileiros dependem da motocicleta para garantir o sustento da família e enfrentam dificuldades para trocar veículos, realizar manutenção ou ampliar sua capacidade de trabalho.
Mas a política precisa ser analisada além do discurso oficial.
A pergunta que surge é simples: por que agora?
Os motociclistas de aplicativos não apareceram em 2026. Eles estão nas ruas há anos. Enfrentam combustível caro, juros elevados, desgaste dos veículos, insegurança e renda cada vez mais apertada desde muito antes da proximidade das eleições presidenciais.
No entanto, justamente quando o governo entra na reta de preparação para a disputa eleitoral, surge uma nova linha de crédito direcionada a uma categoria numerosa, presente em praticamente todas as cidades do país e com forte presença nas redes sociais.
Não se questiona a importância do benefício. O que merece debate é o momento escolhido.
O histórico da política brasileira mostra que governos de diferentes partidos costumam descobrir novas prioridades quando as urnas começam a se aproximar. Multiplicam-se programas sociais, financiamentos subsidiados, renegociações de dívidas e incentivos direcionados a grupos específicos do eleitorado. Em muitos casos, medidas que poderiam ter sido implementadas anos antes acabam sendo lançadas exatamente quando o ambiente eleitoral ganha força.
O problema não está em ajudar os motociclistas. Está em transformar políticas públicas em instrumentos de conquista política.
O dinheiro utilizado em programas de crédito não pertence ao governo. É recurso público, que deve ser aplicado com planejamento, responsabilidade e critérios técnicos. Quando medidas desse tipo surgem em momentos politicamente convenientes, é natural que a população questione se o objetivo principal é fortalecer uma categoria profissional ou fortalecer um projeto eleitoral.
O trabalhador brasileiro merece apoio permanente, não atenção sazonal. Merece políticas estruturantes durante todo o mandato, e não apenas quando a popularidade dos governantes passa a depender diretamente do voto.
Se a linha de crédito for realmente necessária, que seja bem-vinda. Mas o eleitor tem o direito de observar o calendário político e perguntar: estamos diante de uma política pública planejada ou de mais uma tentativa de transformar recursos do Estado em dividendos eleitorais?
A resposta, como sempre, ficará para o julgamento da população nas urnas. Afinal, em democracia, o eleitor também tem o direito de desconfiar quando as soluções aparecem exatamente no momento mais conveniente para quem está no poder.











