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ARTIGO: Pense! Você não é criança

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Por: [Warly Bentes Pontes Jr.]

“O máximo que eu posso fazer por você

É lhe dar um salário mínimo.

O mínimo é o máximo e o máximo é o mínimo

O que eu posso fazer por você.”

Esse é o início da música “Salário Mínimo” de uma banda chamada Espírito da Coisa, criada em meados da década de 1980, no Rio de Janeiro. O grupo ganhou destaque no cenário nacional com o sucesso “Ligeiramente Grávida”, lançado em 1985. Eles ficaram conhecidos pelo som pop/new wave bem-humorado, similar ao estilo da banda Blitz. Nessa música que estou citando os versos são debochados, como neste:

“Ié ei, é ié

Você tá assim na mesma porque você quer.

Nossa terra tem palmeira, tudo aqui dá pé

Veja o exemplo do Pelé.

Os exemplos são tantos

Tem também o Sílvio Santos

(A-ha-hai).”

Lembro dessa música porque na época me fez PENSAR em como uma política de governo poderia influenciar diretamente na minha vida e de milhões de trabalhadores e aposentados. Hoje está mais complicado pensar e expôr qualquer opinião. Humor virou crime se criticar quem está no poder. Posicionamento político virou motivo de ataque de ódio. E nas redes sociais pensamentos, julgamentos e o que é raso, infantil ou sem conteúdo é o que é valorizado. Guerra ideológica. Guerra de narrativa. Guerra de futilidade.

E o que me assusta de verdade é a perda de valores básicos como: saber que roubar, mentir, enganar, matar É ERRADO. Por que o óbvio precisa ser explicado como se falássemos com crianças?

Existe algo estranho acontecendo. Nunca tivemos tanta informação disponível. Nunca tivemos tantos diplomas, cursos, especialistas, podcasts, aulas online. E, ainda assim, nunca foi tão difícil sustentar uma conversa profunda por mais de cinco minutos. Fala-se de política com slogans. De economia com memes. De relações humanas com frases de Instagram. A complexidade foi substituída por bordões. O pensamento virou repetição. E a pergunta inevitável surge: a quem interessa que as pessoas não pensem?

A simplificação passou a funcionar como tecnologia de poder. Michel Foucault já havia desmontado a ingenuidade moderna: o poder não governa apenas por leis ou repressão, mas pela produção de discursos. Em A Ordem do Discurso, ele escreve:

“Em toda sociedade, a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada e redistribuída.”

Durante séculos, controlar o discurso significava censurar livros. Hoje, basta torná-los irrelevantes para o ritmo da vida. Ideias complexas não precisam ser proibidas. Elas apenas precisam ser lentas demais para o feed. Pensar exige silêncio. A internet exige reação. Pensar exige dúvida. As redes exigem certeza. Pensar exige tempo. O algoritmo exige velocidade. E assim nasce uma forma elegante de controle: não se impede o pensamento, apenas se torna impraticável pensar.

Aqui entra o diagnóstico decisivo de Zygmunt Bauman, sociólogo polonês.

Em Modernidade Líquida, ele descreve uma sociedade onde tudo precisa ser rápido, flexível e descartável:

“Na modernidade líquida, nada é feito para durar.”

Nem empregos. Nem relações. Nem convicções. Nem ideias. A profundidade exige permanência. Mas a lógica digital exige um movimento constante. Uma ideia complexa pede leitura, comparação, reflexão. Uma frase pronta pede apenas compartilhamento. E a sociedade escolheu o que exige menos esforço. Surge então o novo analfabetismo: o analfabetismo do pensamento complexo.

Será que a internet transformou o mundo em entretenimento? Muito antes das redes sociais, Neil Postman, educador, teórico da mídia e crítico cultural americano,  já havia previsto o cenário em Amusing Ourselves to Death:

“O problema não é que as pessoas serão privadas de informação, mas que serão afogadas nela.”

Quando tudo precisa entreter, nada pode ser difícil. Nada pode exigir esforço cognitivo. Nada pode ser lento. A política vira espetáculo. A economia vira narrativa moral simplificada. A vida vira conteúdo. Não importa se é verdadeiro. Importa se é compartilhável.

Assim, hoje, vivemos a vitória do espetáculo sobre a realidade. Guy Debord, filósofo francês,  descreveu esse processo décadas antes da internet, em A Sociedade do Espetáculo:

“Tudo o que era vivido diretamente tornou-se representação.”

Hoje não discutimos fatos. Discutimos versões simplificadas deles.

Não vivemos a realidade. Consumimos narrativas sobre a realidade. O espetáculo exige mensagens curtas, emocionais e repetíveis. Porque o espetáculo não quer compreensão, quer atenção contínua. Quem pensa questiona. Quem questiona desacelera. Quem desacelera sai do fluxo. E sair do fluxo é a única coisa que o sistema não tolera.

O filósofo espanhol José Ortega y Gasset já havia percebido esse fenômeno em A Rebelião das Massas:

“O homem-massa acredita que tem o direito de impor suas opiniões.”

A internet democratizou a voz, mas não democratizou o pensamento. Opinar tornou-se mais fácil do que compreender. Reagir tornou-se mais rápido do que refletir. A autoridade do argumento foi substituída pela autoridade da confiança grupal. Não importa se é verdadeiro. Importa se o meu grupo repete.

Talvez o sinal mais inquietante seja este: o óbvio precisa ser explicado.

Adultos precisam ser lembrados de que: Economia não é moralidade. Política não é torcida organizada. Relações humanas são complexas. Soluções simples raramente resolvem problemas complexos (tipo impor no Brasil escala de trabalho diferente de 6×1. É preciso pensar nas consequências, num país onde a maioria de adultos aptos para o trabalho vivem de subsídios do governo).

Hannah Arendt, filósofa alemã, escreveu em A Vida do Espírito:

“A ausência de pensamento não é estupidez; é algo muito mais comum.”

Não falta inteligência. Falta hábito de pensar. Um ambiente que recompensa frases prontas produz mentes prontas. Outro filósofo alemão, Friedrich Nietzsche já alertava em Além do Bem e do Mal:

“O que incomoda não são as mentiras, mas as verdades.”

Pensar profundamente é desconfortável. Ele destrói certezas fáceis. Complica narrativas simples. Exige responsabilidade intelectual. E responsabilidade intelectual não viraliza.

A quem interessa a superficialidade? A resposta é desconfortável.

Interessa a todos os sistemas que dependem de consenso rápido, adesão emocional e previsibilidade social. Afinal superficialidade: reduz conflitos reais, simplifica decisões complexas, acelera adesões e evita questionamentos estruturais. Uma população que repete é previsível. Uma população que pensa é imprevisível. E o poder sempre preferiu previsibilidade.

Finalizando, nunca houve tantos especialistas. Nunca houve tantos cursos.

Nunca houve tantas opiniões. E nunca foi tão raro ouvir quatro palavras revolucionárias: “Não sei. Vamos pensar.”