Por Manuel Menezes
A propaganda tenta transformar a agenda frenética de Roberto Cidade em demonstração de força eleitoral. Caminhadas, reuniões, discursos ensaiados e vídeos nas redes sociais são apresentados como sinais de uma candidatura irresistível. Mas é preciso separar cuidadosamente a movimentação de campanha da realidade dos números.
Afinal, correr não é governar.
A publicação usada para celebrar o suposto avanço de Cidade afirma que pesquisas recentes estariam animando sua campanha. Entretanto, não apresenta o nome dos institutos, os percentuais obtidos, as datas dos levantamentos, a margem de erro nem os respectivos registros na Justiça Eleitoral.
Onde estão os números?
Quando uma candidatura cresce de verdade, sua coordenação apresenta os resultados com clareza. Quando faltam dados, sobra propaganda. Não basta dizer que existe “crescimento consistente” e esperar que o eleitor aceite a afirmação sem qualquer comprovação.
Os levantamentos devidamente identificados contam uma história bem menos confortável para Roberto Cidade.
Na pesquisa Real Time Big Data divulgada em agosto, Omar Aziz apareceu com 34% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Cidade registrou 22%. Em uma simulação de segundo turno, houve empate técnico: Omar marcou 42% e Cidade, 41%. O levantamento ouviu 1.600 eleitores e foi registrado sob o número AM-09965/2026. Portanto, havia competitividade no segundo turno, mas não liderança de Cidade no primeiro.
A pesquisa Quaest também mostrou Omar Aziz à frente, com 26%, contra 18% de Roberto Cidade.
Já o Paraná Pesquisas apresentou Omar na liderança e, em eventual segundo turno contra Cidade, apontou 45% para o senador e 39,3% para o presidente da Assembleia Legislativa. Foram entrevistados 1.350 eleitores de 38 municípios, com margem de erro de 2,7 pontos percentuais.
Esses são números concretos. O restante é narrativa de campanha.
Agenda cheia não substitui resultados
Participar de reuniões, visitar municípios e reunir apoiadores faz parte da obrigação de qualquer candidato. Isso não pode ser apresentado como prova automática de competência administrativa.
Quem pretende governar o Amazonas precisa explicar como enfrentará os problemas reais da população: filas na saúde, insegurança, abandono das estradas, dificuldades enfrentadas pelos municípios do interior, falta de oportunidades e desperdício de dinheiro público.
Também precisa apresentar resultados verificáveis de sua trajetória. Não apenas frases de efeito, fotografias ao lado de aliados e listas genéricas de ações sem metas, impacto ou prestação de contas.
O eleitor amazonense já conhece campanhas baseadas em estruturas poderosas, alianças convenientes e publicidade cuidadosamente produzida. O que ainda falta no discurso de Cidade é demonstrar, com objetividade, por que sua candidatura representaria uma mudança verdadeira — e não apenas a continuidade de um grupo político tentando permanecer no controle.
“Bateu, levou” não é programa de governo
Outra tentativa de fortalecimento da imagem de Roberto Cidade está na adoção do discurso do “bateu, levou”. A frase pode funcionar para alimentar conflitos nas redes sociais, mas está muito abaixo da postura esperada de alguém que deseja comandar um estado complexo como o Amazonas.
O governo não é um ringue.
O Amazonas precisa de equilíbrio, planejamento, experiência e capacidade de dialogar. Um candidato a governador deve responder às críticas com propostas e resultados, não com ameaças políticas ou bravatas eleitorais.
O cidadão que enfrenta uma fila de hospital não quer saber quem “bateu” ou quem “levou”. A família que sofre com a violência quer segurança. O produtor do interior quer estrada. O jovem quer emprego. O servidor público quer respeito e garantia de seus direitos.
É sobre essas questões que Roberto Cidade precisa falar.
A realidade não pode ser escondida
Cidade tem uma campanha estruturada, ocupa um cargo de grande visibilidade e conta com apoio político. Negar que seja um candidato competitivo seria ignorar a realidade.
Mas competitividade não significa liderança. Empate técnico em um cenário de segundo turno não pode ser transformado artificialmente em vitória antecipada, sobretudo quando diferentes levantamentos ainda mostram Omar Aziz na frente.
Roberto Cidade pode intensificar as caminhadas, multiplicar os eventos e acelerar a produção de conteúdo para as redes sociais. Contudo, não poderá correr mais rápido do que os fatos.
No final, o eleitor não julgará apenas o ritmo da campanha. Julgará a experiência, os resultados, a coerência e a capacidade de governar.
Cidade pode correr o quanto quiser. Sem respostas, transparência e resultados, continuará apenas fazendo campanha — enquanto tenta convencer o Amazonas de que movimento é sinônimo de liderança.











