Por: Redação MVE
A crise envolvendo o Banco Master ganhou um novo e delicado capítulo dentro da própria Polícia Federal. Delegados que trabalhavam nas investigações relataram ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que se sentiam pressionados após o vazamento de conversas envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, segundo reportagem publicada pelo UOL neste domingo (14).
De acordo com a apuração, os investigadores teriam manifestado receio de se tornarem alvo do inquérito das fake news, então conduzido por Moraes, caso produzissem relatórios relacionados ao ministro. Esse temor teria sido relatado ao gabinete de Mendonça ainda em março.
A situação ganha relevância institucional porque envolve policiais responsáveis pela investigação de um dos maiores escândalos financeiros em apuração no país e, ao mesmo tempo, uma autoridade integrante da mais alta Corte brasileira.
Orientação dentro da PF entra no centro da controvérsia
Segundo o UOL, o diretor da PF Dennis Cali teria orientado que relatórios envolvendo Moraes não fossem produzidos sem autorização do STF, havendo inclusive recomendação para exclusão de material que já estivesse elaborado. A reportagem afirma ainda que, posteriormente, um HD contendo dados extraídos do celular de Vorcaro foi encaminhado ao gabinete de André Mendonça.
Há, contudo, divergência sobre como ocorreu essa entrega. Uma versão afirma que os próprios investigadores decidiram encaminhar o material como medida de segurança; outra sustenta que o envio teria sido solicitado pelo gabinete do ministro. Mendonça afirma que não abriu o HD.
É justamente essa divergência que agora poderá precisar de esclarecimento formal.
Mendonça pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, que os delegados sejam intimados para explicar as circunstâncias da entrega do dispositivo e os relatos de pressão.
Quem pressionou os investigadores?
A pergunta que surge é inevitável: se os delegados realmente se sentiram pressionados, de onde partiu essa pressão e por quê?
Até o momento, porém, não existe comprovação pública de que Alexandre de Moraes tenha pessoalmente ordenado qualquer pressão contra os investigadores. Também não há, nas informações divulgadas, prova de que a direção-geral da PF tenha agido por determinação do ministro.
Essa distinção é fundamental.
O que existe concretamente, segundo a reportagem, é o relato dos delegados sobre o temor que teriam experimentado e a orientação interna relacionada à elaboração de relatórios envolvendo Moraes. A eventual responsabilidade por essas circunstâncias ainda precisa ser esclarecida.
Caso Master amplia tensão entre STF e Polícia Federal
O episódio ocorre em meio a uma crise institucional muito mais ampla.
A própria PF produziu anteriormente um relatório interno com críticas à condução de André Mendonça nas investigações. Segundo a Folha de S.Paulo, partes desse documento apresentavam hipóteses classificadas pela própria corporação como de “baixa confiança” e o material advertia que determinadas avaliações não deveriam ser utilizadas como prova formal.
Ao mesmo tempo, Mendonça já entrou em confronto direto com a cúpula da Polícia Federal ao determinar o afastamento do diretor-geral Andrei Rodrigues e do diretor de Inteligência Leandro Almada. Posteriormente, decisões dentro do próprio STF alteraram esse cenário.
Agora, o relato dos delegados acrescenta outra dimensão à crise: a discussão deixa de ser apenas uma disputa entre ministros e passa a envolver também as condições em que investigadores da PF trabalharam diante de informações relacionadas a um integrante do Supremo.
Esclarecimento é indispensável
Se os delegados forem formalmente ouvidos, seus relatos poderão finalmente ser confrontados com documentos, comunicações internas e determinações administrativas.
Caso fique demonstrado que não houve pressão indevida, isso também deverá ser tornado claro. Mas, caso surjam evidências de interferência para impedir ou limitar uma investigação legítima, será necessário identificar os responsáveis.
A gravidade do episódio exige justamente isso: prova, transparência e responsabilidade — independentemente de quem esteja sendo citado.
Alexandre de Moraes tem direito de contestar qualquer acusação e apresentar sua versão. André Mendonça também deve ter seus atos submetidos ao mesmo escrutínio. E a Polícia Federal precisa esclarecer por que investigadores disseram ter se sentido pressionados e quais orientações efetivamente receberam.
O caso Banco Master já ultrapassou há muito os limites de uma investigação exclusivamente financeira. A sucessão de documentos, mensagens, decisões e conflitos dentro das instituições colocou o funcionamento do próprio sistema de investigação e Justiça sob escrutínio.
Agora, uma questão objetiva precisa ser respondida: o que aconteceu dentro da Polícia Federal depois que as mensagens envolvendo Moraes e Vorcaro vieram à tona?











