EDITORIAL | Lula cobra transparência dos Bolsonaro, mas recebeu Vorcaro fora da agenda no Planalto

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Presidente exige abertura completa do caso Master, mas precisa explicar a reunião não registrada oficialmente, as investigações envolvendo o filho e a resistência governista em ouvir seu irmão sobre o escândalo do INSS

Por Manuel Menezes

Em comício realizado em Curitiba, Lula cobrou a quebra completa do sigilo das investigações do Banco Master e afirmou que “a família Bolsonaro não escapa”. Também criticou a divulgação de informações supostamente “pinçadas” pelo relator André Mendonça e disse ter procurado o presidente do STF, Edson Fachin, para reclamar da condução do caso.

Defender transparência é correto. O problema é Lula querer aplicá-la somente contra seus adversários, enquanto tenta se apresentar como alguém completamente distante de Daniel Vorcaro e do escândalo do Banco Master.

O fato mais incômodo para o presidente é objetivo: Lula recebeu Vorcaro no Palácio do Planalto em dezembro de 2024. A reunião não constou na agenda oficial e contou com a presença de Gabriel Galípolo e do ex-ministro Guido Mantega.

Não se pode afirmar, sem provas, que foi uma “reunião secreta”. Entretanto, um encontro presidencial fora da agenda, dentro da sede do governo federal e com o controlador de um banco que posteriormente seria investigado, exige explicações completas. A pergunta é simples: se a conversa foi inteiramente republicana, por que não foi registrada e divulgada?

Lula afirmou posteriormente que avisou Vorcaro de que o Banco Master seria investigado com seriedade. Essa é a versão apresentada pelo presidente. Mas não existe transparência verdadeira quando o público só descobre uma reunião depois que o escândalo já tomou conta do país. O encontro foi confirmado pelo próprio Lula.

O presidente também precisa aplicar dentro de casa o rigor que exige dos Bolsonaro. Seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é alvo de três inquéritos derivados da Operação Sem Desconto, que apura fraudes envolvendo benefícios do INSS. Ser investigado não significa ser culpado, mas significa que há fatos que precisam ser esclarecidos. As investigações foram detalhadas pela CNN Brasil.

Frei Chico, irmão de Lula, não é investigado diretamente pela Polícia Federal. Contudo, ele ocupa a vice-presidência do Sindnapi, uma das entidades investigadas no escândalo dos descontos indevidos. Mesmo assim, a base governista trabalhou para impedir sua convocação pela CPMI do INSS. Se Lula acredita que a verdade deve aparecer “doa a quem doer”, por que seus aliados resistiram tanto a ouvir o irmão do presidente? A convocação foi rejeitada por 19 votos a 11.

A relação política com Moraes

A proximidade política percebida entre Lula e Alexandre de Moraes também não pode ser ignorada. Durante a eleição de 2022, Moraes presidia o Tribunal Superior Eleitoral, não o STF. Sob sua condução, decisões da Justiça Eleitoral tiveram impacto direto na campanha presidencial.

Um levantamento publicado naquele período mostrou 42 decisões favoráveis a Lula e seis a Bolsonaro em disputas envolvendo conteúdos considerados falsos. Esses números, isoladamente, não comprovam fraude eleitoral, mas alimentaram a percepção de tratamento desigual denunciada pela oposição.

Em outra decisão, Lula recebeu 24 direitos de resposta, correspondentes a 116 inserções na propaganda eleitoral de Bolsonaro. A medida foi tomada pelo colegiado do TSE, e não individualmente por Moraes, mas teve evidente impacto político na reta final daquela eleição.

Agora, justamente quando Moraes enfrenta questionamentos relacionados ao caso Master e ao contrato milionário do banco com o escritório de sua esposa, Lula critica André Mendonça e procura Fachin para discutir a divulgação dos documentos. Essa movimentação reforça as dúvidas sobre a independência que deve existir entre o presidente da República e os ministros do Supremo.

Lula acusa Mendonça de divulgar informações “pinçadas”, mas ele próprio pinça apenas aquilo que lhe interessa. Destaca as suspeitas contra os Bolsonaro, enquanto silencia sobre seu encontro com Vorcaro, reduz as investigações envolvendo Lulinha e não demonstra o mesmo entusiasmo em esclarecer o papel do Sindnapi.

Que todo o sigilo seja quebrado. Que sejam investigados os Bolsonaro, Lula, seu filho, as entidades ligadas ao irmão, os políticos de todos os partidos, os ministros citados e cada visita de Vorcaro ao Palácio do Planalto.

Transparência não pode ser usada como arma eleitoral contra adversários. Quem realmente deseja revelar a verdade não escolhe antecipadamente quem será investigado e quem receberá proteção.

No Brasil, nenhum sobrenome — Bolsonaro, Lula, Moraes ou qualquer outro — pode servir como escudo contra uma investigação séria.