Por Manuel Menezes
Em política, um número isolado pode virar manchete. Um conjunto de números, porém, costuma contar uma história bem mais complicada.
A tentativa de apresentar Roberto Cidade como integrante do seleto grupo dos “governadores mais bem avaliados do país”, apenas quatro meses depois de assumir o Governo do Amazonas, merece algo básico em qualquer análise séria: contexto.
Sim, existe o dado.
Uma compilação das pesquisas estaduais da Quaest coloca Roberto Cidade com 56% de aprovação e 24% de desaprovação, ocupando a 12ª posição entre 26 governadores analisados. Não há motivo para esconder esse número.
Mas existe uma pergunta inevitável:
por que parar justamente aí?
Porque, quando abrimos o restante dos levantamentos recentes, o retrato deixa de ser tão confortável.
47% aprovam; 42% desaprovam
Pesquisa Real Time Big Data, divulgada na última quarta-feira (26), apresentou um cenário muito diferente.
Roberto Cidade tinha 47% de aprovação e 42% de desaprovação.
Isso mesmo.
Não são 56% contra 24%.
São 47% contra 42%.
A diferença entre quem aprova e quem desaprova é de apenas cinco pontos percentuais. O levantamento ouviu 1.600 eleitores entre 21 e 25 de agosto, possui margem de erro de dois pontos e está registrado no TSE.
E há outro número ainda mais revelador.
Quando os entrevistados foram convidados a avaliar a qualidade da administração, apenas 26% disseram que o governo era ótimo ou bom.
Outros 42% classificaram como regular, enquanto 23% responderam ruim ou péssimo.
Então precisamos perguntar:
26% de ótimo/bom combina com a imagem triunfalista de um dos governos mais bem avaliados do Brasil?
O leitor decide.
A própria Quaest traz outro retrato
A situação fica ainda mais curiosa porque uma pesquisa Quaest realizada especificamente no Amazonas e divulgada em 25 de agosto mostrou 32% avaliando o governo Roberto Cidade positivamente.
Outros 39% consideraram regular e 19%, negativo.
Aqui está um cuidado essencial: aprovação e avaliação ótimo/bom são perguntas diferentes e não devem ser tratadas como se fossem a mesma coisa.
Mas exatamente por isso é problemático transformar um único indicador favorável em uma espécie de certificado absoluto de excelência administrativa.
Pesquisa precisa ser apresentada inteira.
Número precisa ter contexto.
E manchete não pode substituir realidade.
E quando chega a hora de escolher governador?
Existe ainda um teste especialmente importante em pleno período eleitoral: a intenção de voto.
Na Quaest divulgada na semana passada, Roberto Cidade apareceu com 18%.
Omar Aziz liderou com 26%.
Maria do Carmo registrou 16% e David Almeida, 15%. Cidade, Maria e David estão tecnicamente empatados pela margem de erro.
Então surge outra pergunta simples:
se estamos diante de uma administração tão extraordinariamente aprovada, por que o governador não lidera a eleição?
A resposta não precisa ser inventada.
Talvez porque aprovação administrativa e intenção de voto sejam coisas diferentes.
Talvez porque parte da população aprove determinadas medidas sem desejar a continuidade do governante.
Talvez porque quatro meses sejam pouco tempo.
Mas exatamente por existirem tantas possibilidades é que vender o número de 56% como uma espécie de consagração política é precipitado.
Saúde também precisa entrar nessa conta
A propaganda fala das entregas.
A oposição tem obrigação de perguntar pelo que ainda não foi resolvido.
Na saúde, por exemplo, profissionais e empresas prestadoras de serviços continuaram relatando atrasos de pagamentos, enquanto órgãos de controle cobravam respostas do governo. Reportagem publicada em 27 de agosto mostrou justamente o contraste entre milhões destinados ao setor e cobranças de quem presta serviços à rede pública.
É verdade que o próprio governo informa ter pago R$ 276 milhões às empresas prestadoras de serviços médicos. Isso precisa ser reconhecido.
Mas pagar dívida ou regularizar obrigações não pode automaticamente ser transformado em troféu de eficiência.
É obrigação administrativa.
Quatro meses não apagam o grupo político que governa
E há algo que nenhuma pesquisa deveria apagar da memória do amazonense.
Roberto Cidade assumiu o Governo em abril após a saída de Wilson Lima. Portanto, embora tenha apenas quatro meses formalmente sentado na cadeira de governador, não surgiu na política amazonense quatro meses atrás.
Foi presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas e pertence ao mesmo grupo político que comandou o Estado nos últimos anos.
Apresentá-lo como se fosse um personagem recém-chegado, completamente separado da estrutura política anterior, é conveniente eleitoralmente.
Mas a história política não começa no dia da posse.
Pesquisa é fotografia, não absolvição
Roberto Cidade tem números favoráveis? Tem.
Seria intelectualmente desonesto negar.
Mas também possui pesquisa mostrando 42% de desaprovação. Possui apenas 26% de ótimo/bom no Real Time. Tem 32% de avaliação positiva na Quaest estadual. E aparece atrás de Omar Aziz na mais recente pesquisa Quaest para governador.
Tudo isso existe simultaneamente.
É exatamente aí que termina a propaganda e começa a análise.
O eleitor amazonense não deve receber apenas o número que interessa ao governo ou à oposição. Deve receber todos eles e formar sua própria conclusão.
Porque pesquisa não é diploma de competência.
Pesquisa não tapa buraco.
Pesquisa não atende paciente.
Pesquisa não coloca segurança na rua.
Pesquisa não gera emprego por decreto.
Pesquisa mede uma percepção naquele momento.
E quem pretende governar o Amazonas por mais quatro anos precisa ser avaliado por muito mais do que uma manchete favorável.
Pode comemorar os 56%.
Mas terá também de explicar os 42% que desaprovam, os 26% de ótimo/bom encontrados por outro instituto e, principalmente, por que uma gestão apresentada como fenômeno nacional ainda vê seu governador atrás de um adversário na disputa pelo voto.
No fim, eleição não se vence escolhendo qual pesquisa colocar na manchete.
Vence-se quando o eleitor entra sozinho na cabine e escolhe quem acredita estar preparado para governar o Amazonas.











