Menu

EDITORIAL | O Brasil não pode normalizar os escândalos políticos

WhatsApp
Facebook
Telegram
X
LinkedIn
Email

Por: [Manuel Menezes]

O Brasil vive um momento perigoso: o da banalização dos escândalos. A cada nova denúncia, operação ou suspeita envolvendo dinheiro público, parte da sociedade reage com indignação momentânea, mas logo tudo parece cair no esquecimento. Esse ciclo de revolta passageira seguido de silêncio é exatamente o que fortalece a impunidade e enfraquece a confiança nas instituições.

Nos últimos anos, o país assistiu a uma sequência de episódios que abalaram a política nacional. Casos de corrupção, desvios bilionários, aparelhamento estatal, loteamento político e disputas de poder deixaram marcas profundas na economia e na credibilidade do sistema público. Ainda assim, muitos tentam reescrever a história conforme interesses ideológicos e partidários.

A corrupção não tem lado fixo. Ela nasce quando o poder deixa de ser fiscalizado e quando grupos políticos passam a acreditar que estão acima da lei ou protegidos pela estrutura estatal. Nenhum governo deveria ser tratado como intocável. Em uma democracia verdadeira, críticas, investigação e cobrança pública são fundamentais.

O problema é que o Brasil parece viver um processo de anestesia política. Escândalos que antes chocariam a população hoje disputam atenção em meio à polarização extrema, guerras narrativas e militâncias organizadas. Enquanto isso, o cidadão comum continua pagando a conta com impostos altos, serviços precários e uma economia instável.

Também preocupa o enfraquecimento do debate livre. Em vários momentos recentes, opiniões divergentes passaram a ser tratadas quase como ameaça institucional. Democracia não se sustenta apenas com eleições; ela depende de liberdade de expressão, transparência e equilíbrio entre os Poderes.

Não importa quem esteja no comando: esquerda, direita ou centro. O dever da sociedade é fiscalizar permanentemente aqueles que administram o dinheiro público. Quando a população deixa de cobrar, o sistema político naturalmente amplia seus próprios privilégios.

O Brasil precisa recuperar a capacidade de se indignar sem seletividade. O combate à corrupção não pode depender da conveniência ideológica do momento. Se um escândalo é grave quando envolve adversários, também deve ser grave quando atinge aliados.

Esquecer erros do passado é abrir caminho para que eles se repitam no futuro. A democracia só permanece forte quando existe vigilância constante da sociedade, imprensa livre e instituições que atuem sem medo, sem privilégios e sem proteção política.