Por: [Manuel Menezes]
A CPMI do INSS entrou em uma nova fase — e o Partido dos Trabalhadores também.
Até poucos dias atrás, o discurso da base governista era claro: “todos devem ser investigados”. A retórica da transparência era usada como bandeira moral contra adversários políticos.
Mas bastou a comissão aprovar pedidos de quebra de sigilo que incluem o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para que o tom mudasse.
Agora, a narrativa é outra. A votação passou a ser classificada como “ilegal”. Parlamentares governistas anunciam recurso ao STF para tentar suspender os efeitos da decisão.
A transparência, ao que parece, passou a ter limites.
Dois pesos, duas medidas?
A CPMI foi criada para apurar possíveis irregularidades envolvendo contratos e descontos ligados ao INSS. Durante os primeiros debates, integrantes do PT insistiam que a investigação precisava ser ampla e sem blindagens.
Contudo, quando a apuração alcançou nomes ligados ao núcleo do poder — com base em delações que precisam ser esclarecidas e não em condenações — o foco deixou de ser a busca pela verdade e passou a ser a tentativa de bloquear o avanço.
Se não há irregularidade, a investigação é a melhor ferramenta para provar isso.
Mas tentar impedir a apuração antes que ela aconteça gera uma percepção política difícil de reverter.
A estratégia de recorrer ao STF
Recorrer ao Supremo é direito constitucional. Mas politicamente, o movimento levanta questionamentos.
Se o PT defendia investigação irrestrita, por que agora sustenta que a votação é inválida?
Se o procedimento foi regular quando atingia adversários, por que se torna irregular quando alcança aliados?
A política vive de coerência — e a incoerência costuma ser explorada.
O desgaste pode crescer
O governo pode argumentar que está defendendo o devido processo legal. Mas a oposição já constrói a narrativa de que há tentativa de blindagem quando a investigação se aproxima do Planalto.
Em política, percepção importa.
E a percepção que começa a ganhar força é a de que o discurso da “apuração total” tinha endereço certo — até a CPMI mudar o foco.
O teste da coerência
Não há condenação. Não há culpa estabelecida. Há apenas uma investigação parlamentar em andamento.
Mas a reação do PT transformou o episódio em um teste público de coerência.
Quem pede investigação ampla precisa sustentar essa posição quando ela atinge seu próprio campo político.
Caso contrário, o discurso de transparência deixa de ser princípio e passa a ser instrumento.
E instrumento seletivo tem prazo de validade.











