A frase é grave: “O governador do Amazonas é o chefe de uma quadrilha”. A declaração do prefeito de Manaus, David Almeida, direcionada ao governador Wilson Lima, eleva o nível do embate político a um patamar perigoso.
Ao justificar a acusação, Almeida afirmou:
“Não estou falando por impulso. O que está acontecendo no Amazonas é perseguição política disfarçada de operação policial. Não vão usar o Estado para me calar.”
Mas mais preocupante do que a troca de acusações é o pano de fundo que o episódio revela: a percepção crescente de que cargos públicos e estruturas do Estado estariam sendo utilizados como ferramentas de disputa pessoal e eleitoral.
Seja na acusação de perseguição política, seja na suspeita de uso estratégico de operações policiais, o que emerge é um cenário onde a máquina pública parece entrar no jogo político — e isso é devastador para a credibilidade institucional.
O Estado não tem dono
A Polícia Civil, o Ministério Público, os órgãos de controle e o próprio Executivo não pertencem a governantes. São instituições permanentes do Estado.
Ao comentar a Operação Erga Omnes, David Almeida reforçou:
“Quando fazem espetáculo às cinco da manhã, com transmissão ao vivo e sem apresentar resultado concreto, a sociedade tem o direito de desconfiar.”
Quando um gestor acusa o outro de usar uma operação policial para inviabilizar candidatura, o que está em debate não é apenas um caso específico — é o princípio republicano da impessoalidade.
Se há instrumentalização política, é grave.
Se há tentativa de deslegitimar investigação legítima por interesse eleitoral, também é grave.
Em ambos os cenários, quem perde é a população.
O uso político da vitimização

David Almeida sustenta que a Operação Erga Omnes teria sido uma “cortina de fumaça” para atingir sua imagem às vésperas de sua pré-candidatura ao Governo do Amazonas.
“Estão tentando criar uma narrativa para me atingir politicamente. Não encontraram droga, não encontraram arma, não encontraram dinheiro. O que encontraram foi um palanque.”
Essa narrativa pode fortalecer sua base política, criando a imagem de líder perseguido pelo sistema. Trata-se de estratégia comum na política contemporânea: transformar investigação em combustível eleitoral.
Mas a pergunta precisa ser feita com frieza institucional:
A operação foi ilegal?
Houve abuso comprovado?
Ou o discurso de perseguição antecipa defesa política?
Sem decisão judicial transitada em julgado, transformar investigação em palanque pode gerar mais instabilidade do que esclarecimento.
A acusação também exige responsabilidade
Ao afirmar que o governador seria “chefe de uma quadrilha”, David Almeida assume posição de confronto extremo.
“Eu não vou aceitar que tentem me intimidar usando o aparato do Estado. Quem está sujo tenta sujar quem está limpo.”
Acusações dessa magnitude não são retórica comum — são imputações criminais.
Se há provas, devem ser apresentadas aos órgãos competentes.
Se não há, o discurso pode se tornar parte do mesmo ambiente de radicalização que se critica.
A política não pode se transformar em tribunal midiático.
Dinheiro público não é extensão de projeto político
O ponto central é maior do que os nomes envolvidos.
O Brasil vive uma crise recorrente de confusão entre:
- Estado e governo
- Cargo público e projeto pessoal
- Máquina administrativa e estratégia eleitoral
Quando operações policiais são interpretadas como movimentos políticos, a confiança institucional se deteriora.
Quando governantes reagem acusando adversários de crime sem processo formal concluído, o ambiente democrático também se fragiliza.
O uso do aparato estatal — seja para perseguir, seja para vitimizar — corrói o princípio republicano.
Comparação de gestões não substitui investigação
David Almeida argumenta que sua gestão não sofreu operações da Polícia Federal, enquanto o governo estadual foi alvo de múltiplas investigações.
“Em seis anos de gestão, nunca fui alvo de operação da Polícia Federal. Minhas contas foram aprovadas. Não tenho nada a esconder.”
Comparações políticas são legítimas. Mas investigações não são troféus nem escudos.
A ausência de operação não equivale automaticamente a ausência de irregularidade, assim como a existência de investigação não equivale a condenação.
O que sustenta o Estado democrático é o devido processo legal — não a narrativa conveniente.
O risco da escalada
O embate público entre prefeito e governador antecipa um cenário de polarização intensa para 2026.
“Não vou recuar. Se querem disputa, vamos disputar no voto, não na intimidação.”
Se a disputa eleitoral passar a envolver:
- Acusações criminais públicas
- Questionamento da legitimidade de instituições
- Uso político de investigações
o Amazonas entrará em ciclo de instabilidade que desvia foco das pautas essenciais: saúde, segurança, educação e desenvolvimento do interior.
A população não é figurante
O problema não é quem está certo ou errado na disputa imediata.
O problema é quando a máquina pública vira extensão de guerra política.
O dinheiro público não é privado.
O cargo não é propriedade.
A polícia não é instrumento eleitoral.
E a democracia não sobrevive quando cada investigação vira arma e cada acusação vira palanque.
Se há irregularidades, que sejam apuradas com rigor.
Se há perseguição, que seja provada.
Mas enquanto o debate se transformar em troca de acusações e demonstrações de força, o Amazonas continuará refém de um modelo político onde instituições são vistas como ferramentas — e não como garantias.











