Por: [Manuel Menezes]
Em um dos desfiles mais comentados da história recente do Carnaval carioca, a Acadêmicos de Niterói levou à Marquês de Sapucaí um enredo em que a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva foi transformada em espetáculo político. A narrativa exaltou Lula e caricaturou adversários como Michel Temer e Jair Bolsonaro, gerando debates sobre os limites entre expressão cultural e influência política antecipada.
A repercussão vai além da avenida. Cresce a discussão sobre o papel assumido pelo Tribunal Superior Eleitoral em decisões que, na visão de críticos, têm moldado o ambiente político de maneira que favorece determinados atores — inclusive ao longo das últimas eleições.
🏛️ O TSE, Bolsonaro e Lula em 2022
Durante a eleição presidencial de 2022, o TSE foi protagonista de diversas decisões envolvendo campanhas, propaganda e desinformação. O tribunal determinou, por exemplo, a remoção de postagens nas redes sociais que associavam Bolsonaro a grupos criminosos, em decisões sob comando do então presidente do TSE, Alexandre de Moraes — conhecido por atuação firme contra conteúdos considerados falsos ou enganadores durante o pleito.
Em uma ação emblemática, o tribunal também avaliou a legalidade de postagens que supostamente associavam Lula a grupos criminosos, determinando a retirada de conteúdos de redes sociais por estarem ligados a informações falsas ou distorcidas.
Essas decisões ocorreram em meio a um volume intenso de representações por supostas fake news e ataques, com mais de 30 casos envolvendo discursos de ambos os lados, incluindo punições e remoção de conteúdo.
⚖️ Quando a lei encontra política
O TSE também julgou uma ação que resultou na inelegibilidade por oito anos de Jair Bolsonaro, em um caso que envolvia abuso de poder econômico e político por ataques ao sistema eleitoral após a eleição de 2022 — decisão que gerou críticas intensas e também debates jurídicos sobre limites da atuação eleitoral da Corte.
Além disso, a própria campanha de Lula recebeu sanção do tribunal em 2022 por promover conteúdo considerado ofensivo ao adversário — uma multa que se tornou símbolo da complexidade e da tensão em torno das regras eleitorais.
Todos esses episódios ajudam a explicar por que há uma percepção crítica crescente de que as decisões do TSE — e a atuação de ministros como Alexandre de Moraes e, posteriormente, Cármen Lúcia, que elogia o antecessor e se declara comprometida com o combate à desinformação — influenciam de modo significativo o ambiente político e a construção de narrativas eleitorais.
🎭 Carnaval, narrativa e disputa simbólica
Quando um evento de grande alcance cultural como o Carnaval acaba veiculando um enredo que remete diretamente à trajetória política de um presidente em exercício, a discussão deixa de ser estética.
Entram questões de:
- Equilíbrio na disputa simbólica: A transmissão do desfile alcança milhões de espectadores e é matéria-prima para mídias sociais e debates políticos imediatos.
- Interpretação eleitoral: Mesmo sem pedido explícito de voto, a exposição repetida e positiva de um líder político em período pré-eleitoral cria capital simbólico que outros candidatos não conseguem igualar com a mesma facilidade.
- Percepção pública: Especialmente em um ambiente político polarizado, decisões da Justiça Eleitoral são observadas não apenas pela letra da lei, mas pelo efeito percebido no “jogo político”.
Não se trata de afirmar que houve irregularidade legal. Mas há uma questão legítima de debate: até que ponto instituições como o TSE conseguem, com suas decisões e sua presença na esfera pública, influenciar o ambiente político de modo mais amplo?
📌 O clima político e a sensação de vantagem
A percepção crítica não surge apenas da homenagem em si. Ela nasce do conjunto: decisões do tribunal ao longo da última eleição, a atuação de seus ministros na fiscalização de conteúdos eleitorais e a interação dessas decisões com a narrativa política em curso.
Para parte da sociedade, isso passa a compor um cenário em que certas interpretações jurídicas facilitam a construção de vantagem simbólica para líderes em exercício — um fenômeno que, em um ambiente de disputa acirrada, tende a intensificar a polarização.
A Sapucaí pode ser arte.
Mas a política detectou ali um campo de batalha simbólica.
E o tribunal, ao longo das últimas eleições, já provou ser um ator central nesse campo.











