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ARTIGO: Por uma fatia do bolo

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Por Warly Bentes Pontes Jr. 

Ganhava uma fatia de bolo o estudante da 4a. série que se dispusesse a “convencer” seu irmão/irmã a votar na nossa chapa para comandar o Centro Cívico do Colégio Nossa Senhora do Carmo em Parintins/AM. Só os alunos de 5a. a 8a. séries e do segundo grau (1o ao 3o ano) votavam. Eu estava no 3o. ano técnico de contabilidade e era candidato com outros colegas de várias turmas. Essa era uma das nossas estratégias de marketing eleitoral: abordar os irmãos mais novos dos eleitores (rs). Vencemos. No Centro Cívico eu fiquei como diretor de cultura. Na minha gestão organizei uma apresentação de teatro (escrevi uma peça) e outras atividades. Mas minha maior conquista foi convencer a Irmã Genoveva, diretora do Colégio, a deixar eu tocar músicas no intervalo do recreio nos alto falantes da escola. Lembro que o maior sucesso na época era a trilha sonora da novela “A Gata Comeu”, da Rede Globo.  Desde lá  já participei, como coordenador, de 25 campanhas eleitorais, vencendo 19.

O Brasil está atualmente em quarto lugar entre os países com maior eleitorado do mundo, com 155 milhões de eleitores, segundo o TSE (eleições municipais de 2024). Em primeiro está a Índia, 900 milhões. Depois vem  os EUA com mais de 214 milhões e a Indonésia com 194 milhões de eleitores. O Brasil também está entre os poucos países onde ocorrem eleições de 2 em 2 anos. Entre eles o próprio EUA, a Argentina e o México.

Por causa dessa votação de 2 em 2 anos, eu costumo brincar dizendo que no Brasil nosso eleitor é “profissional” em eleição (rs). Isto em vários aspectos. Exemplos? As pesquisas de opinião demonstram que o eleitor é “imediatista” e vai elevando e mudando seu grau de exigência sobre o que quer do candidato a gestor público. Se a rua é de barro – ele quer asfalto. Chegou o asfalto – ele quer um posto de saúde. Quando chegou o posto – ele quer a escola, de preferência na rua da sua casa (rs). E assim sucessivamente, vai-se aumentando a demanda por aparelhos sociais. Assim é o ser humano: seus desejos em primeiro lugar. Sim, em muitas poucas ocasiões se pensa no coletivo. Na maioria das vezes vale o “meu bolso primeiro” ou “o que eu ganho com isso?”. Portanto, a compra de votos sempre vai “seduzir” como o caminho mais rápido numa eleição (afinal o crime é sedutor para os fracos de caráter). E sim, a discussão do ilegal, imoral, antiético só vêm à tona se a compra do voto for descoberta. Infelizmente.

O profissional de eleição mais conhecido  é o cabo eleitoral. Ele pode ser um líder comunitário, o diretor de uma escola, uma pessoa influente num bairro ou um distribuidor de santinho de porta em porta que oferece seus “serviços” para conseguir votos para o candidato. Geralmente essa “promessa” termina em decepção. Já vi candidatos com mil cabos eleitorais terminando a apuração com menos de 100 votos. Ou seja, nem quem estava sendo remunerado pelo candidato, votou nele. Como o voto é secreto, os dois lados (quem compra e quem vende) podem ser enganados. Quantas falas em época de eleição, do tipo – pegue o dinheiro e vote em quem quiser – você já ouviu?

Esse processo da busca do voto, com suas estratégias de comunicação e profissionais de eleição, antes estavam restritos ao período eleitoral. Hoje isso mudou, a busca do voto passou a ser constante, com os militantes políticos buscando conquistar eleitores em todos os lugares como em sindicatos, clubes, salas de aula, redações de TV, jornais, blogs nas redes sociais, disfarçados de “influencers”… 

Já os gestores eleitos colocaram em prática o conceito de que “o político está sempre em campanha eleitoral”. Ninguém mais desce do palanque. Mantêm-se os discursos que deram “certo”, as narrativas que seguram os percentuais de aprovação no alto. Faz-se pesquisa de opinião mensais e estas passaram a ser “bússolas da gestão”. Isto nos leva a pensar na responsabilidade com os cofres públicos. Como explicar, por exemplo, a atual dívida pública do governo federal que se aproxima de incríveis 8,5 trilhões de reais, no Brasil? (fonte: www.gov.br)

A Dïvida Pública Federal inclui os títulos emitidos pelo Tesouro Nacional (a LTN – Letra do Tesouro Nacional) e a dívida externa. O que é a LTN? Em linguagem simples: o governo emite um “papel” com prazo fixo para resgate pagando juros ao investidor. Agora em Janeiro de 2026 o juros é de 14% ao ano. O dinheiro arrecadado com as LTNs compõe os recursos que entram nos cofres do governo.

O Brasil já nasceu endividado devido à indenização de 3,1 milhões de Libras Esterlinas exigida por Portugal para reconhecer a independência (ocorrida em 1822) no ano de 1825, dívida que foi transferida ao Brasil. Durante o século XIX, houve emissões organizadas de títulos internos e contratos de empréstimos externos, com serviços da dívida registrados nos orçamentos a partir de 1828. Atualmente, a dívida pública é monitorada e divulgada pelo Tesouro Nacional e Banco Central, com séries históricas consolidadas mais robustas a partir da década de 1980, após a reestruturação das contas do Banco Central. Assim podemos fazer uma conta rápida: 8,5 trilhões divididos por 213,4 milhões (população brasileira). Resultado? Cada brasileiro deve 39 mil, 831 reais e 30 centavos, já ao nascer (rs).

Governos que se negam a fazer mudanças estruturais (diminuir o tamanho do Estado + honrar seus compromissos pagando suas dívidas) e a agir como donas de casa  – não gastar o dinheiro que não se tem -, não são uma novidade dos nossos dias. Governar pensando apenas na próxima eleição é, antes de tudo, renunciar à ideia de governo. É trocar o horizonte do futuro pelo espelho do presente, a prudência pela aprovação imediata, a responsabilidade histórica pelo aplauso momentâneo. Essa é uma velha tentação política que atravessa séculos.

Já em Aristóteles, na Política, a democracia degenerada — a demagogia — aparece quando os governantes passam a agir não em nome do bem comum, mas para agradar a multidão. Para Aristóteles, o problema não é ouvir o povo, mas substituir a razão política pelo cálculo da popularidade. O governante que governa apenas para ser amado deixa de governar para ordenar a cidade.

Essa crítica reaparece com força em Nicolau Maquiavel. Em O Príncipe, ele afirma que o governante precisa ter a coragem de agir contra a opinião pública quando a sobrevivência do Estado está em jogo. Maquiavel não defende o cinismo gratuito, mas a lucidez política:

“Há coisas que parecem virtudes, mas conduzem à ruína; e coisas que parecem vícios, mas trazem segurança e bem-estar.”

A recusa em realizar reformas necessárias — por medo de perder popularidade — é, para Maquiavel, fraqueza disfarçada de virtude. O governante que só busca ser amado acaba incapaz de ser eficaz.

Séculos depois, Max Weber, em A Política como Vocação, formula talvez a distinção mais incisiva sobre o tema: a diferença entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade. Governar exige assumir as consequências dos atos, inclusive as impopulares. O político que governa apenas para manter sua imagem confunde moral pessoal com dever público e transforma o Estado em palco de autopreservação. Weber é claro: quem entra na política sem disposição para suportar o desgaste moral e a impopularidade não deveria governar.

No século XX, Hannah Arendt aprofunda essa crítica ao mostrar, em Entre o Passado e o Futuro, que a crise da política moderna está ligada à incapacidade de pensar no longo prazo. Para Arendt, governar é fundar um mundo comum, algo incompatível com a lógica do marketing eleitoral. Quando o governante age apenas para agradar, ele abandona a política e abraça a administração da aparência.

Essa lógica atinge seu ápice na contemporaneidade analisada por Byung-Chul Han. Em A Sociedade da Transparência e Psicopolítica, Han mostra como o poder atual se orienta pela sedução, pelo like, pelo engajamento. O governante deixa de impor limites — que toda política séria exige — para se tornar gestor de afetos, refém de pesquisas, algoritmos e humores voláteis.

Nesse cenário, reformas estruturais se tornam quase impossíveis, pois toda medida necessária é, por definição, impopular no curto prazo. O governo que vive sob o pânico da rejeição escolhe a paralisia como estratégia e chama isso de sensibilidade democrática.

Mas a filosofia política é unânime em um ponto: não governar também é uma decisão política, e geralmente a mais covarde. Governos que evitam reformas para preservar popularidade não evitam o conflito — apenas o adiam, transferindo o custo para o futuro, onde já não estarão para responder.

No fim, a pergunta que atravessa Aristóteles, Maquiavel, Weber, Arendt e Han permanece incômoda: Um governo existe para ser popular ou para ser responsável?

A história responde com dureza: governos que governam apenas pensando nas próximas eleições quase sempre deixam para os próximos governos — e para a sociedade — os escombros de sua omissão. A popularidade passa. As consequências ficam. E você? Enquanto espera “a casa desabar” está satisfeito com a sua fatia desse bolo?