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ARTIGO: Ano novo e velhos erros

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Por Warly Bentes Pontes Jr. 

Quando criança os eventos mais importantes para mim eram dois: meu aniversário e o Natal. Na adolescência, já trabalhando, passaram a ser as férias do trabalho e do colégio. Esta percepção foi mudando de grau de importância na juventude e na vida adulta. Já como pai a coisa mudou completamente. O evento mais importante é ver a alegria e o sucesso dos meus filhos. Nada supera isso. Aliado à preocupação com o futuro deles.

Assim acredito que aconteça na vida da maioria das pessoas. Cada um esperando por aquela data ou evento mais importante do ano para si, para sua família, para o trabalho, para sua comunidade… Está aí o período de férias. Logo vem o Carnaval, a Páscoa, as festas juninas, os eventos esportivos… É ano de Copa do Mundo de Futebol, gente! Olha que maravilha! Tanto entretenimento (rs). Gente cuidando da sua vocação, dos seus talentos, do que gosta de fazer, de criar e de trabalhar. Há os que não fazem nada, a tal geração NEM NEM (nem estuda, nem trabalha). E a grande maioria passa o ano só lutando para sobreviver mais um dia, completamente alheia às decisões de quem está no poder e que afetam diretamente o seu cotidiano.

Em 2026, na minha opinião, o evento mais importante é a eleição presidencial. E pensar nesta eleição como profissional da comunicação e pai para mim está se revelando muito angustiante. A divisão cada vez maior entre brasileiros (amigos, colegas de trabalho e até irmãos) por causa de ideologia é fato. Mais preocupante ainda é outro FATO: quem comanda as instituições democráticas que deveriam ser isentas para bem julgar (tribunais superiores) na nossa República Federativa TÊM LADO. O que me deixa inseguro sobre a legitimidade do futuro que estamos construindo. A quem interessa gerar tanta insegurança jurídica, econômica, política e social?

Esta angústia me faz fazer duas perguntas simples:

Primeira: Por que a Humanidade não aprende com seus erros, já que as formas de governo surgiram desde que o Homem passou a viver em sociedade?

Segunda: O que dizer a quem diz que não gosta, não liga e não está nem aí para política?

Você acha que essas questões são só do nosso tempo? Não mesmo. Desde a Antiguidade, a filosofia percebe que os erros políticos não se repetem por esquecimento, mas por disposição humana. Em Platão, já aparece a advertência de que projetos políticos movidos por ideias absolutas tendem a degenerar. Na República, ao imaginar a cidade justa, ele reconhece o risco de que a busca pelo bem comum se converta em autoritarismo quando governantes acreditam deter acesso privilegiado à verdade. O problema não é o ideal, mas sua imposição.

Séculos depois, Aristóteles foi ainda mais realista: “o homem é um animal político” (Política, I, 2), isto é, movido por interesses, paixões e disputas. Nenhum sistema elimina isso. Quando ideologias prometem igualdade perfeita — como ocorreu em diversas experiências socialistas — ignoram a complexidade da natureza humana e produzem novas hierarquias, agora legitimadas moralmente.

Na modernidade, Edmund Burke alertou que romper radicalmente com a experiência histórica em nome de abstrações conduz ao desastre. Para ele, “a sociedade é uma parceria não apenas entre os vivos, mas entre os mortos, os vivos e os que ainda nascerão” (Reflections on the Revolution in France, 1790). Ignorar o passado não é progresso — é arrogância política.

No século XX, Hannah Arendt demonstrou que ideologias fracassam quando transformam ideias em dogmas imunes à realidade. “A ideologia trata a realidade como algo a ser forçado a caber em uma lógica” (Origens do Totalitarismo). Quando os fatos contradizem a teoria, ataca-se o fato — ou quem o aponta.

Essa lógica reaparece hoje nas redes sociais. Michel Foucault já havia mostrado que toda sociedade cria regimes de verdade. “A verdade é produzida por múltiplas coerções” (Microfísica do Poder). Nas plataformas digitais, a guerra ideológica não se trava pelo argumento, mas pela visibilidade, pela repetição e pela deslegitimação moral do outro.

Byung-Chul Han aprofunda esse diagnóstico ao afirmar que o debate foi substituído pelo ataque. “O enxame digital não dialoga; ele reage” (No Enxame). A política vira performance moral: quem discorda não erra — é inimigo.

Assim, não aprendemos com os erros do passado porque continuamos buscando salvação em sistemas fechados e narrativas redentoras. A desigualdade persiste não por falta de ideias, mas porque toda ideologia que promete eliminar o conflito termina concentrando poder. O verdadeiro avanço não está em modelos perfeitos, mas em limites institucionais, pluralismo e memória histórica.

A tragédia política não é errar de novo, é insistir que desta vez a ideologia será mais humana do que o próprio homem.

Em relação à minha segunda pergunta, a conclusão filosófica é que afirmar que “Não gosto de política” é uma posição que também é política.

Se declarar apolítico, que “todo político é ladrão” e que pouco importa quem governa não é neutralidade — é uma posição política passiva. Desde a Antiguidade, a filosofia já alertava para esse equívoco. Recorrendo a Aristóteles de novo, somos um animal político (Política, I, 2). Isso não significa gostar de partidos ou discursos, mas reconhecer que decisões coletivas moldam nossa vida concreta: impostos, educação, segurança, liberdade. Fugir da política não nos livra de seus efeitos — apenas nos impede de influenciá-los.

Em Platão, encontramos um alerta ainda mais direto: “O castigo dos bons que se recusam a participar da política é serem governados pelos maus” (atribuição tradicional ligada à República). Quando todos são colocados no mesmo saco moral, abre-se espaço para que os piores prosperem, justamente porque não encontram resistência crítica.

Hannah Arendt mostrou que a recusa em pensar politicamente favorece formas de dominação banais e perigosas. A apatia não nasce da maldade, mas da desistência do juízo. Quando ninguém se sente responsável, o poder age sem freios (Eichmann em Jerusalém).

Max Weber lembrava que política não é feita apenas de convicções morais, mas de responsabilidade (A Política como Vocação). Dizer que “tanto faz quem governa” ignora que escolhas políticas têm consequências reais — algumas corrigíveis, outras irreversíveis.

No contexto brasileiro, essa indiferença costuma nascer da frustração, não da lucidez. Mas transformar decepção em cinismo é trocar o exercício crítico pela rendição silenciosa. Existem bons e maus políticos como existem bons e maus médicos, advogados, professores, jornalistas, engenheiros etc. Isso é condição humana.  Quando todos os políticos são igualmente desprezados, desaparecem critérios, comparações e exigências. E sem exigência pública, o poder se degrada ainda mais.

Não gostar de política é compreensível. Acreditar que ela não importa é perigoso. Porque o vazio deixado pela consciência crítica nunca fica vazio — ele é sempre ocupado.

A recusa em pensar politicamente não nos coloca acima do jogo — apenas nos retira do tabuleiro. Quando a indignação se transforma em indiferença, o poder deixa de ser vigiado e passa a agir no escuro. A história mostra que não são as piores ideias que triunfam primeiro, mas o silêncio dos que desistiram de julgar.

Não participar, não escolher, não comparar, não exigir — tudo isso já é uma escolha. E quase sempre a mais conveniente para quem governa sem limites. A democracia não morre apenas por golpes ou tiranias declaradas; ela se esvazia quando cidadãos passam a acreditar que nada faz diferença. No fim, o maior erro político não é votar mal — é acreditar que pensar não é mais necessário.

Concluo com uma reflexão: É certo que hoje com toda essa polarização ideológica é muito difícil se posicionar, afinal o ataque de A ou B é feroz, sem respeito e cheio de ódio. Mas é preciso apelar para o BOM SENSO, para a LUCIDEZ diante de fatos, para a HONESTIDADE INTELECTUAL na definição do que é certo e do que é errado. Opine, posicione-se, debata, pense… Não precisa ofender ninguém. Nem responder ao baixo nível. PENSE NISSO! Aprendamos com o passado. Aprendamos com nossos erros. Feliz Ano Novo!