Menu

ANO NOVO: A nossa necessidade de recomeços

WhatsApp
Facebook
Telegram
X
LinkedIn
Email

Por Warly Bentes Pontes Jr. 

Eu sinto uma certa tristeza a cada passar de ano novo. Sempre senti. A mesma melancolia da data de aniversário… Talvez porque nestes momentos nós, normalmente, paramos para pensar na passagem do tempo. E a idade leva a nossa geração a constatar uma verdade: NÃO TEMOS MAIS TEMPO PARA ERRAR. Talvez seja, ainda, porque somos envolvidos por uma sociedade de consumo que nos obriga a pensar e repensar metas, resoluções, promessas de ano novo. Repare: somos compelidos a assumir compromissos pessoais com o TER… Mais dinheiro (emprego melhor), roupas novas, carro novo, celular novo… Porém gosto de pensar que, cada vez mais, haja pessoas, como eu, que renovam seus propósitos com o SER: mais resiliente (preciso muito,rs), mais humanos, mais cristãos, mais caridosos, MELHORES.

Com muito sacrifício e a Graça de Deus eu consegui alcançar algumas “metas de ano novo”. Principalmente aquelas em que fui bondoso comigo mesmo e com minha capacidade intelectual, espiritual e emocional. Outras não cheguei nem perto, como na época que pesei 120kg (rs). Não emagrecia de jeito nenhum apesar de estar na academia quase todo dia. E você? Como se sente no ano novo? Como são seus recomeços?

Uma das primeiras evidências documentadas de festividades de Ano Novo vem da antiga Babilônia, na antiga Mesopotâmia — por volta de 2000 a.C. Os babilônios celebravam o ano novo no primeiro “lua-nova após o equinócio da primavera”, numa festa religiosa chamada Akitu.  Outras civilizações antigas também tinham seus próprios calendários e rituais de renovação: por exemplo, os egípcios celebravam o início do ano com o festival Wepet Renpet, ligado à cheia do rio Nilo.  Assim, a ideia de “virar o ano” ou “recomeçar o ciclo” está presente na história da Humanidade há cerca de 4 mil anos.

O dia 1º de janeiro como começo do ano não é algo natural ou universal — ele é resultado de reforma de calendário e mudança cultural: Na Roma antiga, o ano inicialmente começava com a primavera, mas em 46 a.C. o governante Júlio César introduziu o calendário juliano e estabeleceu 1º de janeiro como início oficial do ano civil.  Mais tarde, com a adoção do Calendário Gregoriano — promulgado pelo Papa Gregório XIII em 1582 — 1º de janeiro foi reafirmado como o início do ano em muitos países.  Com isso, a “virada de ano” passou a ser celebrada em 31 de dezembro, noite antes do novo ano civil — originando a noção moderna de “Réveillon” ou “New Year’s Eve.”

A palavra “Réveillon” vem do francês réveiller (acordar) — simbolizando o “despertar” para o ano novo.  Portanto, o “Réveillon” moderno — a festa de véspera de Ano Novo, com ceia, confraternizações, fogos etc. — é uma adaptação contemporânea da antiga prática de celebrar a passagem de ano.

E vamos de filosofia? (amo) Por que prometemos um novo eu a cada ano novo?

A virada do calendário não muda o mundo — muda nosso modo de perceber o tempo. Para Kant, o tempo não é uma coisa externa, mas a forma pela qual organizamos a experiência:

“O tempo não é uma experiência empírica, mas uma condição necessária da experiência.” Kant, Crítica da Razão Pura

Quando prometemos “um novo eu”, usamos o calendário como ritual simbólico para ordenar a vida. Não é o mundo que recomeça — somos nós.

O existencialismo afirma que o ser humano é possibilidade, não passado. Nietzsche chama isso de superação de si:

“Torna-te quem tu és.” Nietzsche, Gaia Ciência

A promessa de Ano Novo é o desejo de ultrapassar a própria história.

Entre os filósofos, Hannah Arendt talvez tenha dito isso de forma mais bela. Para ela, a essência do humano está no poder de começar:

“O fato de que o homem é capaz de ação significa que o inesperado pode acontecer.” Arendt, A Condição Humana

Prometemos porque acreditamos que algo novo pode surgir de nós — uma espécie de renascimento interior. Mas o recomeço também pode se tornar imperativo social. Foucault mostrou como, na modernidade, o sujeito é levado a gerir a si mesmo, como um projeto contínuo:

“O cuidado de si é uma prática pela qual o sujeito transforma a si mesmo.” Foucault, História da Sexualidade

Mas ele também nos alertava: essa “renovação” pode esconder uma norma social que exige que sejamos sempre melhores, mais eficientes e mais felizes. O recomeço é, ao mesmo tempo, libertador e disciplinador.

As resoluções de Ano Novo, então, não são apenas liberdade — são também disciplina. Byung-Chul Han oferece o alerta final: a cultura do desempenho transforma o recomeço em mandamento — o “novo eu” vira obrigação e exaustão:

“A sociedade do desempenho produz estados depressivos.” Han, A Sociedade do Cansaço – (Olha aí uma das explicações porque eu fico triste).

No Ano Novo, isso aparece nas listas infinitas de metas, na sensação de culpa por não cumprir, na pressão de transformar a vida sempre. Assim, Han nos convida a recuperar uma renovação não produtiva — um recomeço como pausa, não como corrida.

Por que fazemos promessas?

a) Psicologicamente – Prometer é um gesto que projeta o “eu futuro”:

é a tentativa de resolver uma tensão entre o que sou e o que desejo ser.

b) Filosoficamente – Prometer é um ato de linguagem performativa: quando digo “vou mudar”, já começo a mudança. A palavra cria realidade.

Na ética, prometer é um compromisso com a continuidade. No Ano Novo, é um compromisso com a ruptura. Um belo paradoxo.

Além de tudo, o Réveillon é um ritual — e toda cultura usa rituais para lidar com: a passagem do tempo, a mortalidade, a incerteza, a fragilidade da vida. Celebrar a passagem é dizer: “o tempo corre, mas nós estamos juntos diante dele”.

Por isso tem festa, abraço, contagem regressiva: é um modo social de enfrentar algo individual (a finitude). Nietzsche entenderia isso como dionisíaco — a celebração que reconcilia o homem com a passagem trágica do tempo.

Talvez o verdadeiro recomeço não seja a lista de metas, mas a capacidade de reconhecer o milagre do novo, sem violência contra si. No fim, celebrar o Ano Novo é afirmar que o tempo passa — mas nós podemos agir dentro dele.

A promessa não é ingenuidade: é coragem filosófica. É a aposta de que o próximo passo ainda está aberto.

Você já havia parado para pensar nisso? Feliz recomeço!