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Favelas viram ‘escola do crime’ do Comando Vermelho no Rio

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Investigações revelam que os complexos do Alemão e da Penha abrigavam criminosos de outros Estados e serviam de centro de treinamento da facção

Os complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, funcionavam como quartéis-generais e campos de treinamento do Comando Vermelho (CV). É que mostram investigações da Polícia Civil do Estado, reveladas depois da megaoperação da última terça-feira, 28. A ação deixou 121 mortos, incluindo quatro policiais.

Segundo a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), as favelas da região eram usadas como refúgio para traficantes de outros Estados e como “escola do crime”, onde jovens recrutados pela facção recebiam instruções de tiro e manuseio de armamento pesado.

Mensagens e vídeos interceptados pela polícia mostram o funcionamento de uma “escola de tiro” no Complexo da Penha, na área conhecida como Pedreira. “Os criminosos de fora vêm ao Rio para serem formados e depois retornam aos seus Estados”, afirmou o secretário da Polícia Civil, Felipe Curi, em coletiva de imprensa.

Mortos de 8 Estados

Entre os mortos na operação, 40 eram de fora do Rio de Janeiro, segundo dados divulgados pela corporação. As vítimas eram originárias de oito Estados diferentes: Pará (13), Amazonas (7), Bahia (6), Ceará (4), Goiás (4), Espírito Santo (3), Mato Grosso (1) e Paraíba (1). Outros 18 corpos ainda não foram identificados.

A operação reuniu cerca de 2,5 mil policiais e resultou na prisão de 113 bandidos e na apreensão de 90 fuzis. A ação, segundo as autoridades, teve como base provas obtidas ao longo de um inquérito de Inteligência que investigava o tráfico de drogas e armas comandado pelo CV a partir das comunidades do Alemão e da Penha.

A expansão do Comando Vermelho

O Comando Vermelho, fundado no Rio nos anos 1970, tem hoje presença consolidada em quase todos os Estados brasileiros, segundo relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). A facção, que rivaliza com o Primeiro Comando da Capital (PCC), mantém estrutura descentralizada, o que dá autonomia às células regionais. Isso facilita a expansão territorial, especialmente em áreas remotas.

O grupo também atua na Amazônia, onde controla rotas de importação de cocaína vinda do Peru e da Colômbia, além de participar do garimpo ilegal em regiões de fronteira. Essa expansão levou criminosos de outros Estados a buscar abrigo no Rio, onde se integraram à estrutura da facção e passaram a atuar no tráfico local.

“BMW”, o instrutor do tráfico

Um dos principais alvos da investigação é Juan Breno Malta Ramos, conhecido como BMW, apontado como gerente do tráfico na Gardênia Azul, na zona oeste da cidade. Segundo a Polícia Civil, o bandido também chefiava um grupo de matadores do CV conhecido como “Sombra”, responsável por ações armadas em Jacarepaguá.

De acordo com o inquérito, BMW treinava novos integrantes da facção e controlava grandes quantias de dinheiro, usadas para a compra de fuzis, granadas e equipamentos de vigilância. O suspeito teria instalado câmeras com sensores de movimento no Complexo da Penha e na Gardênia Azul para monitorar áreas sob seu domínio. Em vídeos apreendidos, o criminoso aparece utilizando uniforme camuflado e portando um fuzil AK-47.

Mais criminosos na mira

Além da megaoperação no Rio, a ofensiva policial contra o Comando Vermelho se estendeu a outros Estados. Na madrugada desta sexta-feira, 31, sete integrantes da facção foram mortos em confronto com a Polícia Militar do Ceará, na cidade de Canindé. O governador Elmano de Freitas (PT) elogiou a ação, assim como o governador do Rio, Cláudio Castro (PL).

O balanço das operações mostra a dimensão nacional da facção e a integração entre quadrilhas locais e o Comando Vermelho, que hoje se apresenta como uma rede criminosa interestadual, com comando centralizado nas favelas do Rio.

Alemão e Penha: o comando do crime

Para o secretário Felipe Curi, os complexos da Penha e do Alemão se tornaram o núcleo operacional da facção. “São desses complexos que partem as ordens e decisões para todos os outros Estados onde o CV atua”, afirmou.

A ofensiva policial revelou a estrutura de um verdadeiro exército paralelo, com hierarquia, treinamento e base de operações próprias. Entre as provas apreendidas estão armas de uso restrito, granadas, munições e equipamentos de comunicação — itens típicos de organizações paramilitares.