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Mulheres enfrentam dias de viagem para tratar câncer em Manaus

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A aposentada Bersilda Moura da Costa, de 67 anos, percorre até sete dias de barco para tratar o câncer no colo do útero. Moradora de Benjamim Constant, no Alto Solimões, ela viaja dois dias de lancha para chegar a Manaus, onde permanece por semanas ou meses, longe da família e da própria casa. O jornal Folha de S.Paulo divulgou as informações nesta terça-feira, 21.

A realidade de Bersilda se repete entre mulheres diagnosticadas com câncer no interior do Amazonas. Com acesso limitado a exames e hospitais, elas enfrentam distâncias imensas, alto custo de deslocamento e a solidão forçada pelo tratamento.

Em 2025, as mulheres representaram 67% dos prontuários abertos na Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCecon), a única unidade de alta complexidade do Sistema Único de Saúde para câncer no Estado.

Quase todos os deslocamentos dependem de barcos. Durante as viagens, pacientes já debilitadas convivem com a incerteza, a falta de estrutura e o abandono familiar. Muitas não têm sequer onde ficar em Manaus.

Dani Veiga, ativista e ex-paciente de câncer de mama, alerta para falhas graves no sistema: exames demoram, biópsias atrasam e o tratamento começa tarde. Ela passou por dez cirurgias e critica a ausência de políticas públicas para alimentação, hospedagem e acolhimento de pacientes vindas do interior.

“Não adianta apenas vir para Manaus, que é tão distante, se a paciente não tem onde ficar ou como se alimentar durante o tratamento”, afirma Marília Muniz, enfermeira da FCecon e presidente da Rede Feminina de Combate ao Câncer de Mama. “Essas medidas poderiam reduzir drasticamente o tempo de viagem, que hoje pode chegar a duas semanas, e facilitar o acesso à atenção secundária e terciária sem sobrecarregar a capital.”

Faltam centros regionais, sobram promessas

O governo afirma que concentra esforços na descentralização do diagnóstico e no atendimento de média complexidade para lesões pré-malignas. Também diz atuar em prevenção ao câncer de mama e colo do útero. Na prática, porém, não há resposta clara sobre a criação de novos centros oncológicos no interior.

Muniz defende a criação de unidades regionais em municípios maiores e o uso de lanchas rápidas para encurtar a viagem das pacientes.

Em Manaus, o Lar das Marias acolhe mulheres em tratamento contra o câncer. A casa abriga até 50 pacientes, todas acompanhadas por mulheres da família. O espaço oferece apoio psicológico, nutricional, oficinas e alimentação. A ONG é mantida por doações, eventos e editais.

A maioria das acolhidas chega com a doença em estágio avançado. A demora nos exames, a ausência de cultura preventiva e o custo da viagem explicam o diagnóstico tardio.