Por Edson Sampaio
Manaus vive uma crescente e visível crise social, que avança a olhos nus: o aumento acelerado da população em situação de rua, especialmente nas áreas centrais da cidade. A Praça da Matriz, Praça dos Remédios, os arredores do Teatro Amazonas, a Manaus Moderna e até zonas nobres da capital tornaram-se abrigo precário para centenas de pessoas esquecidas pelo poder público — muitas delas, inclusive, já beneficiárias de programas sociais federais e estaduais.
É urgente abandonar o discurso superficial e enfrentar a realidade com medidas concretas. Governar é agir com coragem, não apenas administrar estatísticas.
A omissão disfarçada de assistencialismo
Enquanto o Governo Federal injeta bilhões em benefícios como o Bolsa Família e o BPC (Benefício de Prestação Continuada), a estrutura municipal e estadual parece não saber o que fazer com os vulneráveis que permanecem nas ruas. Muitos deles, mesmo com renda mínima garantida, seguem em total abandono, sem moradia, sem vínculo com serviços sociais e mergulhados em dependência química ou distúrbios psiquiátricos.
Há uma falha gritante na articulação entre os governos: onde estão os programas que vinculam os beneficiários a projetos de reinserção social e familiar? Onde estão as equipes que deveriam buscar as famílias dessas pessoas, verificar a origem, o histórico e propor alternativas reais?
Exemplos que Manaus pode seguir
Algumas capitais têm enfrentado essa crise com mais planejamento. Florianópolis, por exemplo, criou centros de acolhimento integrados com serviços de saúde mental, cursos de capacitação e apoio jurídico. O projeto “Consultório na Rua” ali é modelo nacional, conseguindo recuperar a dignidade de muitos.
Sorocaba, no interior de São Paulo, foi além: criou um sistema de requalificação urbana com inclusão social, onde moradores de rua que não retornam às suas cidades de origem são inseridos em programas de trabalho remunerado, e realocados em moradias subsidiadas, mediante regras claras — como frequência em tratamento e atividades laborais.
É preciso ação e responsabilização
O poder público de Manaus precisa agir com firmeza e responsabilidade. Algumas propostas que podem ser colocadas em pauta imediatamente:
- Identificação e rastreio de origem: Criar equipes intersetoriais (assistência social, saúde e segurança) para identificar cada pessoa em situação de rua, verificar se recebe benefícios e mapear vínculos familiares e de origem.
- Repatriação social com apoio dos municípios de origem: Firmar convênios com prefeituras de onde essas pessoas vieram. Caso não queiram ou não possam voltar, Manaus deve se responsabilizar por oferecer dignidade dentro da cidade.
- Criação de Albergues com Contrapartida: Instituir por meio de projeto de lei albergues com estrutura permanente e rotativa, onde o acolhido participe de tarefas internas, pequenas funções comunitárias ou serviços urbanos — como jardinagem, limpeza de áreas públicas, apoio em feiras — recebendo vale-moradia enquanto reconstrói sua autonomia.
- Cadastro unificado com controle de benefícios: Criar um sistema municipal de acompanhamento de beneficiários, evitando sobreposição de auxílios e exigindo que os atendidos participem dos programas de reintegração como contrapartida.
- Centros de desintoxicação e cuidado psicológico: Grande parte da população em situação de rua sofre com vício em álcool e drogas. A dependência química não se resolve com esmola ou abandono. É preciso investir em centros de recuperação públicos e conveniados, com acompanhamento clínico e social. a rua não é lar, e o abandono não é liberdade
Não podemos naturalizar a ideia de que viver na rua é uma opção de liberdade. Na maioria das vezes, é o último estágio do abandono. Enquanto os governantes fingirem que “não há o que fazer”, a cidade continuará se degradando, e o turismo, a economia e a convivência urbana sofrerão com isso.
A solução existe, mas exige vontade política, articulação institucional e coragem para romper com a cultura da omissão.
Manaus precisa escolher entre continuar tapando o sol com a peneira — ou liderar um modelo de reinserção social eficaz e humanizado para todo o Brasil.












