Menu

Belém e a COP30: entre o entusiasmo e a dura realidade da infraestrutura

WhatsApp
Facebook
Telegram
X
LinkedIn
Email

POR: EDSON SAMPAIO

0 escolha de Belém do Pará como sede da COP30, em 2025, trouxe orgulho para o Brasil e, especialmente, para a Amazônia. No entanto, por trás do simbolismo ambiental e da visibilidade internacional que o evento promete, está uma verdade incômoda: a capital paraense, em seu estado atual, não possui as condições mínimas para receber um evento dessa magnitude.

A primeira e mais gritante evidência disso é o aeroporto internacional de Belém. Apesar de sua importância estratégica na Região Norte, o terminal opera de forma precária, com instalações antigas, climatização deficiente e uma estrutura que já não atende nem à demanda turística habitual, quanto mais à avalanche de chefes de Estado, delegações e imprensa internacional que virão com a COP30. As filas são longas, o atendimento é falho e a capacidade de recepção, limitada.

Nas ruas da cidade, a realidade não é diferente. Belém sofre com um sistema de drenagem praticamente inexistente em várias áreas urbanas. Basta uma chuva moderada para que ruas centrais fiquem alagadas, dificultando o tráfego de veículos e pedestres. Em períodos de cheia, a cidade beira o caos. O saneamento básico é outro ponto crítico: mais de 60% da população não possui acesso a esgoto tratado, o que compromete diretamente a saúde pública e agrava a desigualdade social.

O sistema viário é caótico, com ruas esburacadas, sinalização deficiente e ausência de mobilidade urbana sustentável. O transporte público, majoritariamente operado por ônibus antigos e sem ar-condicionado, enfrenta rotas desorganizadas e superlotação. A ausência de infraestrutura cicloviária adequada e de alternativas como metrô ou VLT coloca Belém anos-luz atrás de outras capitais brasileiras — e do padrão internacional esperado para um evento global.

A rede hoteleira, ainda que em expansão, não comporta a alta demanda esperada para um evento como a COP. Há déficit de leitos com padrão internacional, o que pode empurrar delegações para cidades vizinhas — um contrassenso em termos de logística e impacto ambiental.

Além disso, a cidade vive uma crise urbana crônica, marcada por ocupações irregulares, falta de planejamento urbano e insegurança. A violência urbana é um tema sensível: Belém figura frequentemente entre as capitais mais violentas do Brasil, com taxas de homicídio alarmantes e sensação constante de insegurança nas ruas.

Nada disso é desconhecido. Ao contrário: essas deficiências foram debatidas por anos por técnicos, urbanistas e moradores. A decisão de levar a COP30 para Belém, portanto, parece ter ignorado a urgência de investimentos estruturais e apostado mais na retórica ambiental do que na viabilidade técnica.

Isso não significa que Belém não mereça sediar um evento como a COP. Muito pelo contrário. Como porta de entrada da Amazônia, a cidade tem importância simbólica e estratégica no debate climático. Mas esse merecimento não substitui a necessidade de preparo, planejamento e investimento sério — o que até agora tem se mostrado tímido, improvisado e aquém da responsabilidade que o evento exige.

Faltando menos de um ano para o evento, o tempo corre contra. Se não houver uma força-tarefa nacional e um compromisso real de todos os níveis de governo, a COP30 corre o risco de virar um fiasco logístico — ou pior: uma vitrine mundial para as mazelas do descaso histórico com a Região Norte.

Belém tem potencial, mas ainda está longe de estar pronta. E ignorar isso, por vaidade política ou cegueira institucional, é colocar em risco a imagem do Brasil diante do mundo.