Redação MVE
A defesa do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, a abertura de um inquérito para investigar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O pedido foi apresentado depois da divulgação de mensagens atribuídas ao advogado Walfrido Warde, então integrante da defesa de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Em uma das conversas, Warde teria informado ao banqueiro que Lula agradeceu novamente por um uísque e enviou um abraço.
Os advogados de Flávio sustentam que o episódio precisa ser investigado sob a suspeita de corrupção e advocacia administrativa. O pedido, entretanto, ainda não foi analisado e não significa que Lula tenha sido formalmente colocado na condição de investigado.
O Palácio do Planalto nega que o presidente tenha recebido qualquer presente, enviado recado a Vorcaro ou participado das articulações descritas nas mensagens.
Mensagem fala em agradecimento pelo uísque
A conversa teria ocorrido em janeiro de 2025, semanas depois de Vorcaro participar de uma reunião com Lula no Palácio do Planalto.
Na mensagem atribuída a Warde, o advogado afirma que esteve com o presidente, que Lula teria perguntado se Vorcaro estava bem e mais tranquilo e que havia agradecido novamente pelo uísque.
A versão foi revelada inicialmente por veículos de imprensa a partir do conteúdo extraído do celular do ex-banqueiro. O governo contesta integralmente o relato do advogado e afirma que Lula nunca recebeu a bebida.
Para a defesa de Flávio, a referência ao presente deve ser confrontada com o contexto da reunião realizada no Planalto. Vorcaro procurava integrantes do governo enquanto o Banco Master enfrentava dificuldades e questionamentos relacionados à sua atuação no mercado financeiro.
Os advogados argumentam que não se pode tratar como simples cortesia a suposta entrega de um presente por um banqueiro com interesses submetidos a órgãos federais.
Encontro aconteceu fora da agenda oficial
O próprio governo confirmou que Lula recebeu Daniel Vorcaro no dia 4 de dezembro de 2024. A reunião não constava previamente na agenda oficial do presidente.
Segundo a nota divulgada pelo Planalto, Vorcaro chegou acompanhado do ex-ministro Guido Mantega. Também participaram da conversa o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e Gabriel Galípolo, que na época ocupava a Diretoria de Política Monetária do Banco Central e atualmente preside a instituição.
Ainda conforme o governo, Vorcaro afirmou que estaria sendo perseguido. Lula teria respondido que eventuais denúncias deveriam ser examinadas tecnicamente pelo Banco Central.
A Presidência diz que esse foi o único encontro entre Lula e o ex-banqueiro. A nota também sustenta que o presidente não tinha conhecimento das articulações descritas nas mensagens.
Mesmo assim, a reunião fora da agenda, seguida do diálogo sobre o suposto presente, fortaleceu a cobrança da oposição por uma investigação independente.
Defesa aponta possível atuação nos bastidores
A petição também menciona registros de entradas de Walfrido Warde no Palácio do Planalto. De acordo com os advogados, o defensor de Vorcaro esteve dez vezes na sede do governo durante os anos de 2023 e 2024.
Outras mensagens indicariam que Warde buscava abrir portas para o banqueiro dentro do governo, inclusive tentando organizar encontros com auxiliares próximos do presidente.
Em áudio anteriormente revelado, o advogado afirmou ter recebido uma cobrança do então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, para que Vorcaro encaminhasse um e-mail formal solicitando audiência com o presidente.
O conjunto desses contatos, segundo a defesa de Flávio, mostra que o encontro com Lula não teria surgido por acaso, mas seria resultado de uma articulação para aproximar o controlador do Banco Master do núcleo central do governo.
Essa interpretação é apresentada pelos advogados e ainda depende de comprovação por meio de uma investigação formal.
Oposição cobra de Lula o mesmo padrão de transparência
O pedido coloca Lula diante do mesmo discurso que adotou ao comentar as suspeitas envolvendo Flávio Bolsonaro e outras autoridades citadas no caso Master.
O presidente vinha defendendo a quebra dos sigilos e uma apuração ampla sobre os personagens que mantiveram relações com Daniel Vorcaro. Agora, a defesa de Flávio pede que esse mesmo padrão seja aplicado ao encontro realizado no Planalto, ao suposto presente e às mensagens atribuídas ao advogado do banqueiro.
Se Lula realmente não recebeu o uísque e não enviou qualquer recado, como sustenta o governo, a apuração poderá confirmar oficialmente essa versão. O que não parece aceitável é exigir transparência dos adversários enquanto informações relacionadas ao presidente permanecem sem investigação.
O Planalto também argumenta que foi durante o atual governo que o Banco Central decretou a liquidação do Master e que a Polícia Federal prendeu Vorcaro. Esses fatos, porém, não respondem diretamente às perguntas sobre o encontro fora da agenda nem explicam por que o advogado afirmou ao banqueiro que Lula havia agradecido pelo presente.
Flávio também é investigado
O senador Flávio Bolsonaro já é investigado no STF por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
A investigação apura tratativas entre Flávio e Vorcaro envolvendo recursos para a produção cinematográfica. O senador nega irregularidades.
A abertura do inquérito foi determinada pelo próprio André Mendonça a pedido da Polícia Federal, com manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República.
A existência dessa investigação, entretanto, não impede que fatos envolvendo Lula também sejam apurados. O princípio da igualdade exige que mensagens e relações suspeitas sejam submetidas ao mesmo rigor, independentemente do partido ou da posição ocupada pela autoridade citada.
Decisão sobre pedido pode demorar
A petição foi encaminhada a André Mendonça, relator de investigações relacionadas à Operação Compliance Zero. Contudo, a tramitação dos processos ligados ao caso Master está suspensa enquanto o presidente do STF, Edson Fachin, analisa disputas internas envolvendo relatórios e mensagens extraídas do celular de Vorcaro.
Por essa razão, uma decisão sobre o pedido contra Lula poderá ocorrer somente depois que o Supremo resolver a controvérsia sobre a condução das investigações.
Até o momento, não existe decisão mandando abrir inquérito contra o presidente. Também não há comprovação de que Lula tenha recebido o uísque ou concedido alguma vantagem ao Banco Master.
O que existe é uma mensagem atribuída ao advogado de Vorcaro, um encontro fora da agenda confirmado pelo próprio governo e um pedido formal para que esses fatos sejam apurados.
Depois de defender transparência total no caso Master, Lula terá agora de aceitar que a investigação também se aproxime do Palácio do Planalto. A verdade não pode depender de quem está sendo citado.











