Por Manuel Menezes
Quando o governo quer, a burocracia corre. Quando se trata da saúde, porém, médicos, enfermeiros e fornecedores parecem condenados a esperar.
Registros divulgados com base no Portal da Transparência mostram que, no dia 23 de setembro, o governo Roberto Cidade reconheceu dívidas e emitiu empenhos que somam R$ 6,91 milhões para duas empresas ligadas a fornecimentos e serviços do Detran-AM realizados em 2025.
Foram destinados R$ 2.464.844,00 à Protemac Indústria e Comércio de Borracha Ltda. e R$ 4.450.769,82 à Search Informática Ltda. Os valores aparecem distribuídos em nove registros formalizados a apenas dez dias do primeiro turno.
Não se questiona aqui o direito de empresas receberem por serviços efetivamente prestados. A pergunta é outra: por que despesas do ano passado foram reconhecidas e encaminhadas com tamanha rapidez justamente às vésperas da eleição, enquanto trabalhadores essenciais continuavam denunciando atrasos?
No caso da Protemac, os cinco empenhos estão relacionados ao fornecimento de capacetes, antenas retráteis, caixas térmicas, coletes refletivos, cotoveleiras e joelheiras para o programa Detran Cidadão.
A Search Informática recebeu a maior parcela. Os quatro registros, que totalizam R$ 4,45 milhões, referem-se a soluções informatizadas e serviços de infraestrutura tecnológica, manutenção e desenvolvimento de sistemas.
Enquanto o Detran recebeu atenção acelerada, a saúde continuou pedindo socorro. Empresas responsáveis por serviços médicos nos SPAs de Manaus relataram pagamentos pendentes desde outubro, novembro e dezembro de 2025.
Em Lábrea, médicos, enfermeiros e funcionários do Hospital Regional foram às ruas no dia 24 de setembro. Segundo os manifestantes, o hospital estava entrando no quinto mês sem receber os repasses necessários. Trabalhadores relataram mais de três meses de salários atrasados e até a realização de uma campanha de arrecadação de alimentos para ajudar funcionários.
O governo afirma que vem pagando parte das dívidas da saúde e anunciou, em agosto, novos repasses às empresas médicas. A própria gestão, entretanto, reconheceu que ainda negociava pendências classificadas como um passivo acumulado.
Isso não apaga o contraste. Para determinados fornecedores, o reconhecimento da dívida e o empenho aparecem rapidamente no sistema. Para médicos, enfermeiros e funcionários que mantêm hospitais funcionando, restam protestos, promessas e espera.
O problema não é apenas contábil. É uma questão de prioridade, transparência e respeito à população. Computadores, capacetes e sistemas administrativos são importantes, mas nenhum deles atende um paciente, realiza uma cirurgia ou mantém uma emergência funcionando.
Roberto Cidade precisa explicar por que R$ 6,9 milhões relacionados ao Detran ganharam velocidade justamente na reta final da eleição, enquanto profissionais da saúde continuavam cobrando recursos e salários atrasados.
Em um governo sério, quem salva vidas não pode ser colocado no fim da fila.
O Amazonas precisa decidir: o dinheiro público deve correr conforme o calendário eleitoral ou conforme a urgência da população?
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