Quem vai eleger o próximo presidente: o povo ou ministros que agem como cabos eleitorais de Lula?

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As decisões tomadas na reta final da campanha aumentam a suspeita de interferência política do Judiciário e colocam em dúvida a neutralidade exigida de quem deveria apenas garantir o cumprimento da Constituição

Por Manuel Menezes

A eleição deveria ser uma escolha exclusiva do povo brasileiro. São os cidadãos, por meio do voto, que possuem autoridade para decidir quem governará o país. Mas, diante dos acontecimentos dos últimos dias, uma pergunta precisa ser feita:

Com parte dos ministros do STF tomando decisões vistas como favoráveis a Lula e interferindo na atuação do TSE, quem vai eleger o próximo presidente: ministros transformados em cabos eleitorais ou o povo brasileiro?

A pergunta é dura, mas legítima.

Lula passou toda a campanha evitando confrontos diretos com seus adversários. Não participou de nenhum debate presidencial em 2026 e, no lugar do último encontro antes do primeiro turno, escolheu conceder uma entrevista ao Flow Podcast, ambiente no qual não precisaria enfrentar perguntas dos outros candidatos.

Para justificar sua ausência, declarou que os debates são “infrutíferos”, “não produzem nada” e servem para candidatos fazerem “gracinhas” e tentarem “lacrar”. Também defendeu que candidatos com desempenho menor nas pesquisas não deveriam confrontar quem aparece na liderança.

A declaração revela desprezo pelo contraditório. Debate não existe para agradar ao presidente, proteger sua liderança nas pesquisas ou oferecer um ambiente confortável à sua campanha. Existe para permitir que o eleitor compare propostas e veja como cada candidato reage quando é questionado.

Ao mesmo tempo em que Lula recusava o confronto, decisões judiciais tomadas nas últimas horas antes do programa alteraram as regras acordadas para o debate da Globo.

A pedido da campanha petista, a ministra Estela Aranha, do TSE, proibiu a emissora de mostrar o púlpito vazio de Lula e impediu que os adversários dirigissem perguntas ao presidente ausente. Em outra frente, Gilmar Mendes contrariou decisões de Nunes Marques e Cármen Lúcia e determinou a inclusão de Renan Santos no encontro. A Globo alegou insegurança jurídica e cancelou o debate.

Flávio Bolsonaro também errou ao desistir de participar. Mas seu erro não apaga o fato de que Lula havia recusado o convite anteriormente nem elimina o efeito político das decisões judiciais: a ausência do presidente deixou de ser exposta diante de milhões de eleitores, e o último grande confronto do primeiro turno simplesmente não aconteceu.

Ministros do STF e do TSE não foram eleitos para escolher candidatos, reorganizar campanhas ou proteger políticos do desgaste eleitoral. Foram investidos em seus cargos para aplicar a Constituição e garantir regras iguais para todos.

Quando decisões tomadas às pressas beneficiam repetidamente o mesmo lado, impedem críticas ao candidato ausente e alteram as condições de um debate poucas horas antes de sua realização, a sociedade tem o direito de desconfiar.

Não é preciso provar a existência de um acordo secreto para reconhecer o problema. Basta observar o resultado político dessas intervenções. Lula recusou-se a debater, sua campanha recorreu ao Judiciário e a cadeira vazia que simbolizaria sua ausência foi proibida. No fim, nenhum confronto aconteceu.

A Justiça Eleitoral deveria garantir que o povo escolhesse livremente. Não pode transformar-se em participante da disputa. Muito menos pode permitir que decisões de ministros não eleitos tenham mais peso na campanha do que a vontade de milhões de brasileiros.

Quem ocupa uma cadeira no Supremo precisa demonstrar imparcialidade não apenas em seus discursos, mas principalmente em suas decisões. Quando essa neutralidade desaparece — ou sequer parece existir —, a confiança nas instituições começa a desmoronar.

O Brasil precisa decidir se continuará sendo uma democracia conduzida pelo voto ou se aceitará que ministros assumam o papel de árbitros, jogadores e até cabos eleitorais dentro da mesma partida.

A Constituição estabelece que todo poder emana do povo. Não dos ministros. Não dos tribunais. Não dos interesses de um candidato.

Por isso, a pergunta permanece:

Quem vai eleger o próximo presidente do Brasil: o povo nas urnas ou ministros que parecem trabalhar para manter Lula no poder?


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