Redação MVE

O senador e candidato ao Governo do Amazonas Omar Aziz (PSD) colocou em debate uma pauta que exige coragem política, conhecimento da realidade do interior e disposição para buscar soluções além dos discursos tradicionais. Durante entrevista ao consórcio de sites G6, Omar defendeu a implantação responsável do manejo de jacarés como instrumento de equilíbrio ambiental, proteção dos estoques pesqueiros e geração de renda para as comunidades ribeirinhas.

A proposta não significa caça indiscriminada nem liberação de abate sem controle. O que Omar apresentou foi a necessidade de construir uma política de manejo com acompanhamento técnico, licenciamento ambiental, definição de áreas, seleção de animais e aproveitamento integral dentro de uma cadeia produtiva legalizada.

“Você não precisa chegar lá matando tudo, não. Faz o manejo”, afirmou o candidato ao explicar a diferença entre exploração predatória e uso controlado dos recursos naturais.

Uma proposta ligada à realidade do interior

Omar citou como exemplo a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Médio Solimões. Reconhecida pela conciliação entre conservação ambiental, pesquisa científica e permanência das populações tradicionais, Mamirauá demonstra que preservar não significa condenar as comunidades à pobreza ou impedir toda atividade econômica.

O candidato chamou atenção para a redução da oferta de pescado e para o fato de o Amazonas recorrer a peixes produzidos em outros estados. Na avaliação dele, a falta de políticas eficientes para organizar os recursos naturais contribui para o enfraquecimento de cadeias produtivas que já foram mais fortes dentro do próprio estado.

A preocupação de Omar toca diretamente a vida da população. O peixe é uma das principais fontes de proteína das famílias amazonenses e também sustenta pescadores, feirantes, comerciantes, frigoríficos, transportadores e milhares de trabalhadores do interior.

Por isso, discutir o equilíbrio dos ambientes aquáticos significa tratar simultaneamente de segurança alimentar, emprego, renda e custo de vida.

Ciência deve orientar o manejo

A relação entre a população de jacarés e a disponibilidade de peixes precisa ser estudada em cada área, considerando as diferentes espécies, cadeias alimentares e condições dos rios e lagos. O próprio histórico do debate mostra que pesquisadores já contestaram generalizações sobre o impacto dos jacarés nos estoques pesqueiros.

Esse cuidado científico não enfraquece a proposta de Omar. Ao contrário: mostra qual deve ser o caminho para transformá-la em uma política pública séria. O manejo sustentável precisa começar com levantamento populacional, avaliação ambiental, definição de quotas e monitoramento permanente.

Não se trata de eliminar jacarés, mas de verificar onde existe possibilidade de manejo, em que quantidade e sob quais regras, sempre respeitando a capacidade de reprodução das espécies e o equilíbrio do ecossistema.

A Reserva Mamirauá já oferece uma referência positiva nesse campo. Seus programas de manejo participativo demonstram que decisões baseadas em pesquisa, organização comunitária e fiscalização podem recuperar estoques naturais e, ao mesmo tempo, melhorar a renda das famílias.

No caso do pirarucu, o Instituto Mamirauá informa que o manejo participativo ajudou a aumentar em aproximadamente 620% o estoque natural da espécie nas áreas manejadas da reserva. O exemplo mostra que a presença das comunidades, quando acompanhada por regras claras e conhecimento técnico, pode fortalecer a conservação.

Bioeconomia com aproveitamento integral

Omar também apresentou o potencial econômico do manejo. Segundo ele, a cadeia produtiva pode aproveitar a carne, o couro e até as vísceras dos animais, destinadas à produção de ração. A proposta reduz desperdícios e aproxima o Amazonas de um modelo de bioeconomia que transforma recursos locais em trabalho, renda e produtos de maior valor agregado.

O candidato defendeu a instalação de uma estrutura industrial flutuante para processamento e filetagem, capaz de atender tanto à cadeia do jacaré quanto à do pescado. Em um estado marcado por grandes distâncias e dificuldades logísticas, uma unidade adaptada à realidade dos rios pode aproximar o beneficiamento das comunidades produtoras.

Com licenciamento, rastreabilidade e certificação de origem sustentável, os produtos poderiam alcançar mercados mais exigentes e garantir melhor remuneração. O valor econômico deixaria de ser capturado pela atividade clandestina e passaria a circular legalmente, com fiscalização, arrecadação e benefícios para os moradores das unidades de conservação.

Experiência já existente no Amazonas

O debate sobre manejo de jacarés não começou nesta eleição. Em 2018, foi concedida licença para uma experiência de abate controlado na comunidade do Jarauá, em Uarini, dentro da Reserva Mamirauá. A autorização previa regras ambientais e um limite de animais das espécies jacaré-açu e jacaretinga durante o período de validade.

No ano seguinte, o tema voltou a ser tratado como alternativa econômica pelo próprio Governo do Amazonas. À época, a Secretaria de Meio Ambiente sustentou que o licenciamento poderia conciliar controle da atividade, conservação das espécies e geração de renda para moradores de unidades de conservação.

Esses antecedentes reforçam que Omar não apresentou uma aventura ambiental. Ele retomou uma discussão que já passou por órgãos ambientais e experiências concretas, mas que ainda não foi transformada em uma política econômica contínua e estruturada.

Ribeirinho como parceiro da conservação

Um dos maiores méritos da proposta é reconhecer que o morador do interior não deve ser tratado como inimigo da floresta. Ribeirinhos, pescadores e extrativistas conhecem os ciclos da natureza e podem atuar como parceiros do Estado no monitoramento e na proteção dos recursos.

Com treinamento, organização em associações, assistência técnica e participação nas decisões, essas populações podem assumir papel central em uma cadeia produtiva sustentável. Além de gerar renda, a legalização reduz o espaço do abate clandestino e cria interesse econômico na conservação dos ambientes onde as espécies vivem.

Omar demonstra compreender que o Amazonas precisa abandonar dois extremos: de um lado, a exploração predatória; do outro, uma preservação feita apenas no papel e distante das necessidades de quem mora na floresta.

Coragem para enfrentar problemas reais

Ao colocar o assunto em discussão, Omar Aziz mostra disposição para enfrentar um problema complexo sem recorrer a respostas fáceis. Sua proposta une segurança alimentar, ciência, proteção ambiental, iniciativa privada e oportunidades para o interior.

A ideia ainda precisa ser detalhada em um programa com metas, fiscalização e participação de pesquisadores, órgãos ambientais e comunidades. Mas o ponto de partida é importante: transformar o potencial da biodiversidade amazonense em desenvolvimento sustentável, sem destruir a floresta e sem abandonar as famílias que dependem dela.

O Amazonas possui conhecimento científico, experiência comunitária e riqueza natural para liderar uma nova economia da floresta. O que falta é decisão política para organizar essas forças.

Omar trouxe o debate para o centro da disputa e defendeu uma visão em que conservar e produzir não são objetivos incompatíveis. Quando o manejo é baseado em ciência, controle e participação comunitária, a natureza permanece protegida e o povo do interior também ganha a oportunidade de prosperar.

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