“Não sou juiz, mas já condenei”: Lula transforma investigação em palanque

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Presidente afirma que não deseja julgar ninguém, mas chama investigado de ladrão, distribui acusações e atribui a si próprio uma prisão

Por Manuel Menezes

“Eu não quero julgar ninguém porque não sou juiz, não sou delegado.”

A declaração seria uma demonstração de prudência se Lula não tivesse feito exatamente o contrário durante a entrevista concedida ao Flow. Depois de afirmar que não pretendia julgar ninguém, o presidente chamou Daniel Vorcaro de ladrão, disse que o Banco Master teria “corrompido todo mundo” e ainda declarou, em tom de triunfo: “Eu transformei o banqueiro dele em prisioneiro.”

A contradição é evidente. Lula diz que não é juiz, mas anuncia culpados. Diz que não é delegado, mas apresenta suas próprias conclusões. Afirma respeitar as investigações, mas usa um caso ainda em andamento como arma eleitoral contra seus adversários.

Não se trata de defender Vorcaro nem de diminuir a gravidade das acusações envolvendo o Banco Master. Tudo precisa ser investigado profundamente, sem proteção a empresários, ministros, parlamentares, governadores ou qualquer outra autoridade. Se houver crimes, os responsáveis devem ser processados e punidos com o rigor da lei.

Mas justamente por isso o presidente da República deveria agir com responsabilidade. Investigação não é condenação. Prisão preventiva não é sentença definitiva. Notícia publicada não substitui julgamento. E o palanque eleitoral não pode funcionar como tribunal.

Quando Lula diz “eu transformei o banqueiro em prisioneiro”, também revela uma preocupante tentativa de se apropriar do trabalho das instituições. O presidente não prende ninguém. A Polícia Federal investiga, o Ministério Público acusa, o Banco Central atua dentro de suas competências e o Poder Judiciário decide sobre prisões, medidas cautelares e condenações.

Essas instituições não pertencem a Lula, ao PT nem a qualquer presidente.

A frase pode até funcionar como propaganda, mas carrega uma ideia perigosa: a de que prisões seriam conquistas pessoais do governante. Em uma democracia, o presidente não pode falar como dono da Polícia Federal, chefe dos juízes ou comandante de um tribunal político destinado a encarcerar adversários.

A contradição se torna ainda maior porque Lula passou anos exigindo para si respeito ao devido processo legal, ao direito de defesa e à presunção de inocência. Agora, quando as acusações alcançam pessoas que podem ser associadas aos seus adversários, a prudência desaparece e dá lugar à condenação antecipada.

O devido processo legal não pode valer apenas para aliados. A presunção de inocência não pode ser lembrada somente quando beneficia Lula ou integrantes de seu grupo político. Direitos e garantias constitucionais precisam valer para todos — inclusive para aqueles que o presidente considera inimigos.

Na mesma entrevista em que criticou os debates eleitorais por supostamente terem virado espaços de “lacração”, Lula distribuiu insultos, acusações e sentenças políticas. Recusou o confronto direto com os demais candidatos, mas aproveitou um ambiente mais confortável para atacar adversários sem receber contestação imediata.

Esse comportamento mostra que o problema de Lula talvez não seja com a “lacração”. O problema parece ser com o contraditório.

Debater significa ouvir perguntas incômodas, ser confrontado com números, responder às críticas e dividir o espaço com quem pensa diferente. Em uma entrevista sem adversários, Lula pôde acusar, julgar e condenar sem que ninguém tivesse o direito de responder no mesmo momento.

O Brasil precisa conhecer toda a verdade sobre o Banco Master. Precisa saber quem participou, quem recebeu vantagens, quem facilitou operações, quem se omitiu e quem eventualmente cometeu crimes. Nenhuma ligação política pode impedir a investigação.

Mas o país não precisa de um presidente transformando investigações em espetáculo eleitoral e prisões em troféus pessoais.

Se Lula realmente não é juiz, deve parar de distribuir sentenças. Se realmente respeita as instituições, não pode falar como proprietário delas. E se pretende conquistar novamente o voto dos brasileiros, precisa compreender que democracia exige debate, responsabilidade e respeito às regras — não condenações prontas pronunciadas diante das câmeras.

Mantive Vorcaro como investigado, e não como condenado, porque ele está preso preventivamente e o processo ainda não terminou. noticias.uol.com.br


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