Por Manuel Menezes
O portal Metrópoles voltou a colocar o ex-ministro Paulo Guedes no centro de uma reportagem envolvendo uma empresa acusada de causar prejuízos a investidores. Investigar é legítimo. Questionar figuras públicas também. Mas existe uma pergunta que não pode ficar sem resposta: com que autoridade moral um veículo cobra transparência dos outros enquanto sua própria direção enfrenta questionamentos sobre interferência de um grande anunciante em reportagens?
Em 15 de outubro, o UOL revelou mensagens extraídas pela Polícia Federal indicando que Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, teve acesso antecipado a reportagens do Metrópoles e solicitou alterações em conteúdos jornalísticos.
Segundo a investigação jornalística, pelo menos 14 textos foram encaminhados previamente ao banqueiro, e 11 sofreram modificações após seus pedidos. O relacionamento ocorreu no contexto de contratos publicitários milionários.
Isso é grave. Muito grave!
A direção do Metrópoles nega que os contratos tenham comprometido a cobertura editorial e afirma que a consulta prévia fazia parte de procedimentos de checagem. Essa explicação merece ser considerada, mas também questionada diante das mensagens divulgadas.
Paulo Guedes precisa de provas. O Metrópoles também precisa dar explicações.
A reportagem sobre Paulo Guedes relaciona sua atuação como consultor à credibilidade conquistada por uma empresa posteriormente acusada de irregularidades.
Entretanto, prestar consultoria não significa automaticamente participar de uma fraude. É necessário demonstrar conhecimento, responsabilidade e eventual envolvimento consciente.
O mesmo rigor precisa valer para o Metrópoles.
Se a proximidade de Paulo Guedes com uma empresa justifica investigação jornalística, por que a proximidade da direção do portal com Daniel Vorcaro não deveria provocar questionamentos igualmente rigorosos?
Não se pode usar critérios diferentes conforme a identidade de quem está sendo investigado.
Não confundam a direção do portal com todos os jornalistas
É fundamental fazer uma distinção: os questionamentos dirigidos à direção do Metrópoles não podem ser automaticamente estendidos a todos os profissionais que trabalham no veículo.
Existem jornalistas sérios, independentes e comprometidos com a verdade em diferentes redações brasileiras.
A responsabilidade por decisões empresariais e editoriais deve ser apurada individualmente. Não seria justo atribuir a cada repórter o comportamento de seus superiores.
E a independência diante do poder político?
Também é legítimo cobrar transparência sobre eventuais verbas de publicidade governamental recebidas pelo portal, inclusive durante o governo Lula.
Mas receber publicidade pública, quando legalmente contratada, não comprova submissão política. O que precisa ser examinado são os contratos, os valores e a existência ou não de interferência editorial.
Independência jornalística não se proclama apenas em discursos. Demonstra-se com transparência e comportamento.
A credibilidade começa dentro de casa
O Metrópoles tem todo o direito de investigar Paulo Guedes, Lula, Bolsonaro ou qualquer autoridade brasileira.
O que não pode é exigir explicações dos outros e tratar os questionamentos sobre sua própria atuação como assuntos secundários.
As revelações envolvendo Vorcaro são sérias demais para serem ignoradas. Elas exigem esclarecimentos públicos e uma discussão profunda sobre os limites entre publicidade, influência empresarial e liberdade editorial.
O jornalismo brasileiro não pode se transformar em instrumento de interesses financeiros ou políticos. E quem exige transparência precisa começar oferecendo transparência.
Porque a imprensa que fiscaliza o poder também precisa aceitar ser fiscalizada.
Antes de apontar o dedo para Paulo Guedes, o Metrópoles precisa responder uma pergunta: quem realmente tinha influência sobre suas manchetes?











