Por: [Manuel Menezes]
Durante visita oficial a Seul, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil “está pronto” para abastecer o mercado de carnes da Coreia do Sul. O discurso foi feito em fórum empresarial, em tom otimista, celebrando o avanço nas negociações para exportação de carne bovina, suína, ovos e uvas.
Mas, apesar do entusiasmo político, o cenário real é mais cauteloso: o mercado ainda não está oficialmente aberto. O que houve foi um avanço técnico — com previsão de auditorias e certificações — etapas indispensáveis antes da liberação definitiva.
Avanço ou anúncio antecipado?
No caso da carne bovina, o governo sul-coreano se comprometeu a realizar auditorias em frigoríficos brasileiros. Trata-se de uma fase preliminar. Só após inspeções sanitárias e validação dos protocolos é que a exportação poderá ser autorizada.
Ou seja: ainda não há prazo definido.
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, comemorou o avanço, mas evitou cravar datas. Isso reforça a percepção de que o anúncio presidencial pode ter sido mais político do que técnico.
No comércio internacional de proteínas, etapas sanitárias são decisivas — e costumam ser longas e rigorosas. A Coreia do Sul é conhecida por exigências elevadas, especialmente após crises sanitárias globais envolvendo carnes.
Estratégia comercial ou vitrine diplomática?
Lula destacou que o Brasil negocia o acesso ao mercado sul-coreano há 15 anos. O tempo prolongado revela dois pontos:
- A complexidade das barreiras sanitárias internacionais.
- A dificuldade histórica do Brasil em converter potencial produtivo em acordos efetivos.
O discurso presidencial, ao citar até o tradicional “bulgogi” coreano, buscou simbolismo cultural e aproximação diplomática. No entanto, no plano econômico, o que realmente importa são contratos assinados, plantas habilitadas e cargas embarcadas.
Sem isso, o anúncio permanece no campo das intenções.
Dependência do agro e narrativa econômica
O governo tenta fortalecer a imagem de que a política externa está abrindo mercados e ampliando oportunidades ao agronegócio — setor que, historicamente, não é base eleitoral predominante do PT.
A estratégia é clara: mostrar pragmatismo econômico, reduzir tensões internas e sinalizar competitividade internacional.
Mas há uma questão estrutural:
- O Brasil continua exportando majoritariamente commodities.
- O valor agregado ainda é baixo.
- A dependência de proteína animal expõe o país a oscilações sanitárias e geopolíticas.
Abrir mercado é positivo — mas não resolve o debate sobre industrialização, inovação e diversificação da pauta exportadora.
O que realmente está em jogo
A Coreia do Sul é um mercado relevante, com alto poder de compra e exigências rígidas. Se concretizada, a abertura pode significar ganhos importantes para frigoríficos e produtores.
Porém, até que:
- Auditorias sejam concluídas,
- Certificados sanitários emitidos,
- Plantas brasileiras habilitadas,
- E contratos formalizados,
o anúncio permanece como promessa diplomática.
Conclusão
O Brasil pode, de fato, ter avançado tecnicamente nas negociações com a Coreia do Sul. Mas afirmar que o país “está pronto” não significa que o mercado já esteja aberto.
Entre discurso político e realidade comercial existe um caminho burocrático que pode levar meses — ou anos.
O sucesso da viagem presidencial só poderá ser medido quando a carne brasileira estiver, de fato, nos supermercados coreanos — e não apenas nos discursos internacionais.











